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Expresso

O povo enmalucou

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Andámos anos a dizer que este era o pior Governo do mundo, ou pelo menos de Portugal. Alguns diziam que era pior do que no tempo de Salazar; outros que os líderes do Executivo eram particularmente maus – queriam que os jovens emigrassem; queriam matar à fome os velhos e acabar com o SNS; queriam mais desempregados, acabar com os subsídios aos mais pobres. Que apenas os instalados, ricos e boys dos partidos da coligação podiam apoiar tal camarilha. Ora, como os eleitores aumentaram, na medida em que a abstenção diminuiu e não pode haver tanto instalado, rico e boy, só podemos retirar uma conclusão: o povo está doido, enmalucou e quer que Portugal se afunde

Claro que a esquerda tem uma hipótese: unir-se toda, o que nunca aconteceu, e fazer um Governo onde Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa nos levem, estrada fora, para um local qualquer que passará por um segundo resgate ou algo pior.

Falando a sério, a grande derrota do PS – que começou na forma como Costa retirou o poder interno a Seguro (coisa que alegrou muito os socialistas e simpatizantes, mas não parece ter alegrado mais ninguém) e terminou numa campanha de ziguezague que não se percebeu se o PS queria ir para a esquerda ou para o centro – tem consequências naquele partido. Não sei se Costa retirará para ele a conclusão que retirou para Seguro, mas se não o fizer, agora que teve um resultado semelhante em percentagem, mas pior, uma vez que perdeu, não será algo excelente de se ver.

O Bloco, como se esperava teve um grande resultado e o PCP aguentou-se. Os pequenos conseguiram algo, mas nada que se veja verdadeiramente.

A conclusão é esta: Portugal é o único país da Europa onde, depois de quatro anos de uma política terrível de austeridade, aqueles que a levaram a cabo conseguem voltar a vencer. O PSD e o CDS são os grandes vencedores e qualquer tentativa de minorar a sua vitória é mesquinha. Qualquer tentativa de impedir à priori de não deixar governar quem vence não faz parte da nossa melhor tradição democrática.

Claro que o PSD e o CDS perderam muitos votos em relação a 2011. Mas a verdade é que o PS quase não apanhou nenhum deles e que a diferença entre a coligação e o PS é suficientemente grande para lhes dar a oportunidade de governar (obviamente em diálogo com o PS em todos os aspetos relevantes).

O povo não se rendeu ao medo, nem ficou louco. O que devemos refletir, com muito cuidado e profundamente, é nesta enorme clivagem entre a opinião publicada e a opinião dos portugueses nas urnas. Por cada Pacheco Pereira que dizia do Governo o que Maomé não dizia do toucinho, quantas pessoas fora da área do poder ouvimos dizer que o Governo estava a fazer bem? Por cada pessoa que bramava contra o Passos, quantos ouvimos a apoiá-lo?

Este é o ponto mais importante para nós, jornalistas.

Para o país, teremos de ver o que se passará. É necessário que a coligação, caso forme governo estável, não desfaça o que fez. O apoio que teve deve-se, em grande parte, à promessa de reformas, de mudanças, de adaptações a um mundo que mudou e que os socialistas não quiseram ou não puderam acompanhar.

O resto é conversa…