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Expresso

Teoria geral sobre como enganar eleitores

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Confesso que uma das coisas que mais me irrita é a normalidade com que se acha que os eleitores são idiotas e merecem ser enganados. Não que alguém o diga preto no branco, mas porque decorre do que dizem. Um dos comentadores mais brilhantes e ouvidos, por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa, achou Passos sensato por não avançar com nenhuma medida para a Segurança Social, uma vez que esta tem de depender de um acordo com o PS. Até aqui tudo bem. Mas, depois, acrescenta que um acordo de regime “só será possível depois das eleições”.

Pronto, agora digo eu que sou um pouco retardado e estúpido: porquê só depois das eleições? E dizem-me os adiantados e inteligentes: porque antes ninguém vai querer ceder, nem anunciar más notícias. Ao que eu respondo: ainda bem que somos estúpidos e não percebemos nada de política. Acho que desta forma se compreende melhor a célebre frase atribuída a Jesus Cristo: “Abençoados os pobres em espírito, pois deles será o reino dos céus”.

Vamos tentar ser lógicos: ainda ontem li num jornal de referência, o ‘Público’, que, de acordo com estimativas da Comissão Europeia (‘Ageing Report’), quando me reformar ficarei com menos de 45% do que hoje ganho. Isso não será para daqui a muito tempo. Quer dizer que dentro de pouco mais de meia dúzia de anos passarei a receber menos de metade do que ganho hoje. E provavelmente terei as mesmas despesas (senão mais, depende até de impostos) do que tenho agora.

Perante isto, os políticos e alguns comentadores dizem (à exceção da singular ministra das Finanças) que isso pode não ser assim. Que com o crescimento (deixem-me rir desse crescimento fantasmagórico que nos porá a ganhar rios de mel) e com mais isto; com transferências não sei de onde e com um acordo geral dos grandes partidos, tudo se resolve. Mas quando votarmos, nada teremos a dizer sobre isso. Porquê? Porque um bloco fica à espera do acordo e o outro fica à espera que acreditemos que eles, sim, têm uma solução indolor que não provocará dano a ninguém.

E perante este cenário, sempre que alguém pretende discutir o assunto a sério, vêm dizer-nos que não é a altura. Que não é o tempo. Antes de eleições? Nem pensem! O povo, os cidadãos, os ignaros podem querer meter-se no assunto e querer saber a verdade toda.

Devo dizer que conseguirei viver com metade do que ganho. Há gente que vive com bastante menos do que isso. Mas não aceito viver com metade do que ganho dentro de anos em nome de que ninguém aceite – já, hoje, agora, viver com um pouco menos que seja. Como estou disposto a viver com menos apenas se isso significar que os meus filhos ainda terão reformas.

Meus caros políticos, tudo isto são assuntos demasiado sérios para ficarem naquele jogo infame a que nos habituámos noutros tempos. Estes são tempos de verdade e de transparência. Os eleitores têm capacidade para saber a verdade sobre as pensões que recebem e virão a receber. O que já não têm é paciência para aturar estes divertimentos florentinos de que tem sido feita a nossa política.

Eu, pelo menos, não tenho a menor.


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