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Ulrich não é chinês, mas podia ser

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É difícil não gostar de Fernando Ulrich. O presidente do BPI é aquilo que fala. Frontal, direto, sem travão na língua. Há quem não goste do estilo. Eu gosto. Apesar de muitas vezes não concordar com ele. Mas há uma coisa que nunca pode deixar de fazer. Mostrar todas a cartas. Fernando Ulrich diz-se chocado com o avultado investimento chinês em Portugal numa altura em que concorre à compra do Novo Banco, exatamente contra capital chinês.

A transparência é algo que os banqueiros deviam preservar mais. Posso estar errado, mas não me lembro de ter ouvido Fernando Ulrich até hoje dizer mal sobre estes investimentos. Aliás, o primeiro empresário/gestor de peso que se manifestou contra estes investimentos foi Alexandre Soares dos Santos, no ano passado, durante a conferência anual da revista Exame. É no mínimo estranho que só agora, quando o investimento chinês está a atacar o setor financeiro - (já compraram a Fidelidade e o BESI e são apontados como favoritos para comprar o Novo Banco) - que lhe faça impressão tanto investimento.

Mas o presidente do BPI não se fica por aqui e aparece na defesa do capital angolano afirmando que "ninguém fica escandalizado que o presidente da Fosun seja membro do comité do Partido Comunista Chinês e as empresas sejam comandadas pelo Estado e depois 'aqui d'el-rei' quando os angolanos compram qualquer coisa em Portugal, argumentando que não são transparentes". (frase retirada do página da internet do Diário Económico).

Primeiro é preciso dizer que Guo Guangchang, líder da Fosun, não é membro do comité do Partido Comunista chinês. Trabalhou, ainda na faculdade, para a juventude comunista chinesa. E foi em 2012 chamado para participar no congresso do Partido Comunista chinês. Ele e alguns dos homens mais ricos da China. Mas neste caso isso até pouco importa. São públicas e conhecidas as relações entre as várias empresas chinesas e o governo da China. Uma coisa que eles não fazem é esconder essas ligações. E em segundo lugar é preciso nunca esquecer que o investimento chinês em Portugal foi feito de facto com dinheiro vindo da China, ou seja, representou entrada de divisas.

Agora Angola. Num ponto Ulrich não podia estar mais certo. Todo e qualquer investimento angolano não é bem visto em Portugal. Existe um complexo nacional contra o dinheiro de Angola. Complexo que não existe contra o dinheiro chinês.

Só que Ulrich - (cujo banco que lidera tem como segundo maior acionista a empresária angolana Isabel dos Santos e cuja principal fonte de receitas é a operação que tem em Angola, o BFA)- esquece-se de referir a opacidade que existe em relação ao investimento angolano. O que diria Ulrich se um dos seus principais acionistas fosse chinês?

Muitos dos investimentos angolanos em Portugal foram feitos na verdade com dinheiro de bancos portugueses. E só há uma coisa menos transparente que a origem do dinheiro de alguns empresários angolanos, as suas intenções em relação a Portugal. Neste aspeto os chineses não escondem os seus objetivos, que não são de curto prazo, e que fazem parte de uma estratégia nacional bem definida.

No resto o investimento chinês tem tanto de bom e de mau como o angolano.