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João Vieira Pereira

Perigosos desvios do PS à direita

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(Crónica publicada no Expresso no dia 25 de Abril de 2015)

Começo por esclarecer, para aqueles que consideram que o mundo é branco ou preto, que é possível alguém com alguns desvios liberais gostar de partes das propostas do PS. O que me leva a pensar que o relatório "Uma década para Portugal" está muito mais à direita do PS do que seria de esperar. A grande mais-valia do estudo é que centra o debate político em políticas económicas, de onde nunca deveria ter saído.

Só que ao estilo PS. Nada como pedir a uns independentes que façam umas contas que não comprometem ninguém. Se correr bem o partido tinha razão. Se correr mal eram apenas umas ideias loucas de uns economistas bem-intencionados. Esta falta de coragem é a mesma que levou Sampaio da Nóvoa a avançar sozinho. Uma espécie de "vai andando que eu já lá vou ter". A política do tubo de ensaio. Cheia de falta de coragem e reveladora da ausência de pensamento político consistente.

Outros pontos positivos. A criação de um imposto negativo para os trabalhadores de menores rendimentos; a descida da TSU para as empresas; a eliminação da sobretaxa do IRS e a reposição dos salários da função pública de forma mais rápida.

E, claro, aquela onde o PS propõe uma privatização do sistema de pensões da segurança social. Temporária e parcial. Mas não deixa de ser uma privatização. Ao cortar as contribuições dos trabalhadores por um período de tempo, reduzindo mais tarde a respetiva reforma, está na prática a adiantar dinheiro ao trabalhador. Que pode gastar, poupar, ou mesmo investir num sistema privado de segurança social. Esta medida só peca por ser curta. Devia ser opcional mas permanente e superior aos 4 pontos percentuais previstos.



Mas (há sempre um mas), há um tesourinho deprimente que tem de ser referido. Estas medidas acabam com o coeficiente familiar que beneficiava o IRS de quem tinha mais dependentes a cargo, filhos ou idosos. E substitui por um reforço do abono de família, uma media que durante anos a fio serviu para pouco mais do que nada em matéria de natalidade.



O PS sempre foi contra esta medida porque dizia que beneficiava as famílias mais ricas, já que fazia com que um filho de uma família pobre valesse menos do que o de uma família rica, isto apesar de haver limites ao benefício. O que na prática o PS está a dizer é que na sua ótica, hoje em dia, ter muitos filhos é um privilégio dos ricos. Sendo que já sabemos qual é limite a partir do qual se é rico em Portugal.



E, por último, a fé. A dos economistas no seu modelo. De que, perante mais rendimento, as famílias vão voltar a gastar e a gerar procura que, por sua vez, gera crescimento e emprego. Pois eu tenho dúvidas de que as famílias queiram gastar. O mais provável é que uma boa parte desse rendimento seja transformado em poupança. Ou usado para pagar dívidas à banca. Se isso acontecer, aquele cenário idílico do PS, de que é possível injetar na economia até 2019 mais 6 mil milhões de euros, vale pouco mais do que zero.