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Altice rima com chatice

A PT Portugal está prestes a ser engolida pela Cabovisão. Parece uma piada, mas não é. O grupo francês Altice, que detém a pequena operação em Portugal, está em negociações exclusivas com a Oi para comprar aquele que foi durante anos uma das maiores empresas portuguesas e um exemplo no sector empresarial.

Até aqui tudo bem. A Altice só pode ser melhor do que os acionistas brasileiros, que não querem, não entendem, nem gostam da PT. Até pode. Mas será?

1) A Altice é um emaranhado de holdings e subholdings, supostamente detida por um multimilionário francês que era praticamente desconhecido há menos de um ano. Por exemplo, a primeira referência que existe no "Financial Times" ao nome de Patrick Drahi é de novembro de 2013, numa notícia que nem sequer tem a ver com ele. Num ano, Drahi passou de homem de negócios israelita a multimilionário francês. Ninguém questiona como.

2) A gestão da Cabovisão desde que foi comprada pela Altice deixa muito a desejar. Pode ser defeito meu, mas ainda não encontrei ninguém que me dissesse bem do trabalho da Cabovisão desde que foi comprado pelo grupo financeiro.

3) Num ano a Altice comprou, através da Numericable (uma empresa de cabo) o segundo maior operador francês, a SFR, à Vivendi. Pagou 17 mil milhões de euros e ganhou a corrida contra o conglomerado francês Bouygues, o terceiro maior operador francês de telecomunicações. As junk bonds da Numericable tornaram-se estrelas numa questão de horas. Em maio deste ano, analistas diziam que o negócio ia mudar as telecomunicações em França. Não mudou, para já. Agora a Numericable diz que quer comprar também a Bouygues. Se conseguir são mais 11 milhões de clientes de móvel e dois milhões de cabo. As holdings da Vivendi continuam a somar clientes à custa de mais dívida. Já vimos onde esta espiral pode acabar.

4) Agora a Altice está quase a pagar 7,4 mil milhões de euros pela PT. Um pouco mais de dívida. Num mercado saturado e com uma forte concorrência. A Altice promete um projeto industrial forte para a PT Portugal. Anos a acompanhar estas promessas permitem-me dizer que não acredito nelas. Tal como não acreditava nas promessas da Apax/Bain. A PT vai entrar num ciclo brutal de controlo de custos e investimento mínimo, com vista a fazer parte de um processo de consolidação no sector das telecomunicações a nível europeu. É só uma questão de tempo.

5) Só a OPA anunciada da Isabel dos Santos pode impedir este cenário. Não deixa de ser irónico que hoje a empresária angolana é a única esperança de muitos  portugueses.

Temos de dar o benefício da dúvida à Altice. Mas para já esse benefício é muito pequeno.