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A verdade segundo Salgado

Já não há só verdade e mentira. Sobre o que se passou no BES há também a versão Ricardo Salgado. O ex-presidente do BES foi à Comissão Parlamentar de Inquérito apresentar uma nova visão dos factos. Só sua. 

A versão resume-se a uma ideia simples mas ao mesmo tempo engenhosa. Para Salgado não havia problema nenhum no BES e por isso o Banco de Portugal é o único responsável pelo descalabro do banco. 

Numa intervenção muito bem preparada aproveita a confusão dos últimos dias do BES para se apoiar em declarações, comunicados, relatórios feitos na altura para criar uma nova realidade. E para quem não acompanhou este caso até faz sentido. É possível que Salgado só tenha conhecido os problemas do grupo no final de 2013. É possível que o isolamento do BES fosse impossível de fazer em tão pouco espaço de tempo. É possível que a sua gestão tivesse feito tudo para impedir o contágio do grupo GES ao BES. É possível que o excesso de zelo tenha levado ao registo de imparidades exageradas pelo BES. É possível que Salgado tivesse saído pela própria mão se Carlos Costa lhe tivesse dito para sair. É possível que Álvaro Sobrinho tenha sido o único responsável pelo colapso do BESA. É possível, mas não é verdade.

Vamos por partes.

1) Salgado sabia. Ele não era só o líder da parte financeira do grupo. Ele era o líder de uma família. Tudo girava à sua volta. Machado da Cruz até pode voltar atrás na sua palavras perante os auditores eternos do banco, a KPMG, ou perante a auditoria da ESGF, mas aos advogados do próprio GES disse que Ricardo Salgado sabia. Sabia ele e outras pessoas do seu grupo restrito. E faziam-no desde 2008 para esconder os problemas do grupo.

2) Isolar o BES do Grupo Espírito Santo era possível se a administração do banco assim o quisesse. Salgado utilizou o banco e todos os seus braços para salvar o seu grupo. Até ao último minuto em que esteve à frente do banco. As operações com a Eurofin, as cartas conforto para a Venezuela e o investimento da PT e da Tranquilidade na Rio Forte são exemplo disso. 

3) A gestão do BES era dividida em duas partes. Os que não tinham toda a radiografia do problema e que fizeram tudo para salvar sem sucesso o banco. E os que tinham a imagem toda e fizeram tudo para salvar a situação financeira insustentável em que colocaram o Grupo Espírito Santo. 

4) O único exagero que houve sobre as imparidades do BES foi deixá-las chegar ao ponto a que chegaram. Em julho a administração do banco liderada por Vítor Bento, os auditores e o Banco de Portugal não tiveram excesso de zelo, apenas expuseram a situação de falência que Salgado, Morais Pires e  Isabel Almeida colocaram o BES.

5) Salgado não saiu antes porque não queria. A sua própria família tentou e não conseguiu. Ele queria perpetuar o poder a todo o custo. A tentativa de nomear Morais Pires, o seu braço direito no banco, é a prova última da insistência em se manter na liderança do banco. Durante meses a fio contestou a atuação de Carlos Costa em toda a linha. Nesse tempo nunca colocou a hipótese de sair.

6) Finalmente sobre o BESA: Álvaro Sobrinho fez aquilo que o deixaram. Resumir o que se passou em Angola a um "erro de julgamento" na pessoa que liderava o banco é risório. Através do BESA o BES perdeu €3,4 mil milhões, mais 55,7% do capital do banco. É um "erro" demasiado sério. Salgado chegou a apresentar em encontro de quadros do BES Álvaro Sobrinho como uma estrela. O BESA representou durante anos boa parte dos lucros do BES. Foram distribuídos milhões em prémios à gestão. O BESA dava jeito. Se não foram coniventes deviam ter exposto toda a situação mal foi descoberta ainda em 2003. Mas não foi isso que Salgado fez. Preferiu pedir uma garantia ao governo angolano para esconder o problema.

Durante toda a intervenção Ricardo Salgado insistiu que tudo estava bem. Que banco era seguro. Que o problema era no GES. E que nessa parte ele não tinha responsabilidade porque se ocupava da parte financeira. Acredite quem quiser.