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Expresso

TAP, Porto, TGV e autárquicas

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A existência de um comboio de alta velocidade entre Lisboa e Madrid foi durante algum tempo o sonho de muitos. O projeto apresentado como estratégico para Portugal iria ser um foco de crescimento através de um elevado investimento público. Iria salvar bancos, construtoras, criar emprego e permitir uma aproximação entre duas capitais europeias cada vez mais interligadas economicamente.

Para quem defendia o projeto, havia estudos que garantiam procura certa e volumosa que iria cobrir os custos. Depois vieram os políticos. E os autarcas. E o plano, que ligava Lisboa a Madrid, passou a ligar Vigo, Porto, Coimbra B, Santarém e mais umas quantas estações e apeadeiros. Tudo antes de chegar à fronteira. Depois era direto a Madrid.

Esta pequenez autárquica, que se esconde atrás do argumento de que é necessário combater a macrocefalia da capital, é um dos maiores precursores de despesa desnecessária. E um dos maiores entraves ao nosso crescimento.

É neste absurdo que foram construídas piscinas, pavilhões multiúsos, estádios, autoestradas e até aeroportos que não voam para lado nenhum.

E chegamos finalmente à TAP e ao Porto.

“Como portuense não estou muito preocupado, a TAP há muito que abandonou o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, que hoje não é tão importante como foi". "A TAP não é estrutural para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro nem para a região, nem a região parece ser estrutural para a TAP, não dramatizo essa situação, é um problema do Governo, não é um problema nosso".

As palavras são de Rui Moreira, proferidas em Abril do ano passado, quando se começou a falar da situação precária em que se encontrava a companhia aérea.

Um ano depois, afinal, a TAP é essencial para o Porto e os voos que a companhia, agora privada, anunciou que ia deixar de realizar a partir do Aeroporto Sá Carneiro, estratégicos.

A TAP perdia 8 milhões por ano com aquelas rotas. O crime não é acabarem. O crime está em terem sido mantidas mesmo a perder dinheiro. E quando a companhia era 100% do Estado.

O contribuinte não tem que suportar rotas para Milão, Roma, Bruxelas ou outra qualquer cidade europeia apenas por comodidade dos cidadãos de uma cidade. Seja ela Lisboa, Porto, ou Beja.

O dinheiro do Estado, o dinheiro que é nosso, tem que ser utilizado para manter rotas que diminuam a distância entre vários pontos do país. E se aceito e defendo que as rotas entre Lisboa e Bragança, Porto e Lisboa, ou para a Madeira e os Açores devem ser suportadas, não aceito que sejam mantidas rotas para cidade europeias subsidiando férias e compras de quem quer seja.

E se, como Rui Moreira diz, há procura, então o mercado irá tratar de fazer com que apareçam alternativas. A Ryanair foi a primeira a dizer que irá garantir parte dessas rotas.

Claro que fica a pergunta: mas se a TAP não ganha dinheiro com aquelas rotas porque quer a Ryanair substituí-la? Porque a empresa de low cost não voa para os mesmos aeroportos das cidades em questão, porque tem uma estrutura de custos interna que não é herdada de uma empresa pública na falência, porque é em grande parte subsidiada por associações de comerciantes e turismo em Portugal, porque provavelmente não paga as mesmas taxas à ANA que paga a TAP.

Rui Moreira sabe isto tudo. E também sabe que ia perder esta guerra. Mas daqui a nada há eleições autárquicas novamente e nada como aparecer como o grande defensor do Norte e do Porto numa altura em que a TAP está no centro do foco mediático. Brilhante.

Estamos no tabuleiro da política. Felizmente a TAP já não é pública. Se fosse lá estaria o contribuinte a pagar a reeleição de Rui Moreira para a Câmara do Porto. E mesmo assim… Esperemos para ver como acaba este folhetim.