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A minha carta a Centeno

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Caro Mário Centeno.

Partindo do princípio que vamos mesmo ter um governo do Partido Socialista, não queria deixar de lhe dar alguns conselhos. Entenda-os como vindos da parte de quem já acompanhou o trabalho de nove ministros das Finanças.

Começo por esclarecer que concordei com muitas das propostas presentes no seu relatório “Uma década para Portugal”. Na altura, neste mesmo espaço, numa crónica intitulada “Perigosos desvios do PS à direita”, teci elogios a várias medidas e apenas duas críticas, se bem que uma era crucial, ao realçar o grande otimismo dos números que o seu modelo apresentava.

Infelizmente algumas dessas medidas que me enchiam os olhos caíram nas negociações com o Bloco e com o PCP. Tenho, contudo, a certeza que dos escombros das suas ideias iniciais sobra alguma coisa que ainda lhe faz sentido. Só deste modo se compreende que aceite ser ministro das Finanças.

Assim, o meu primeiro conselho é que seja coerente e não ponha em causa aquilo em que acredita. Não há nada pior. Nunca. Nem quando lhe venderem a ideia de que é por um bem maior. Algo que em política é usado recorrentemente como chantagem. Há sempre uma saída. Lembre-se que não é a função que faz a pessoa.

Escolha a sua própria equipa. Não deixe que seja o partido a impingir-lhe o nome dos secretários de Estado. E escolha pessoas com muita experiência e de preferência a nível empresarial. A última coisa que precisamos é de um Ministério que seja tirado a papel químico do mundo académico.

Faça muitas contas. E refaça-as. Ponha o seu modelo económico a trabalhar. E não se esqueça que há muitos imprevistos e surpresas negativas que surgem de onde menos se espera. O Estado é uma máquina extremamente produtiva quando se trata de gastar dinheiro. E, quando no fim do dia chegar ao valor do défice, ponha mais um ponto ou outro, só para ter a certeza que tudo corre bem.

Tome conta da máquina fiscal. O seu principal aliado no Governo vai ser o responsável pelos impostos. Não tenha ilusões. O cargo de ministro das Finanças é o mais solitário de todo o executivo. O senhor vai ser o mau da fita. Dentro e fora do Governo.

E por último. Treine como dizer ‘não’. Pode começar em frente do espelho. Tente vários tons de voz. Escolha o mais assustador e decidido, pois esse que vai ser o seu maior amigo nos próximos tempos. Use e abuse do ‘não’ para com os seus colegas de governo que vão entrar numa deriva despesista desde o primeiro dia. Resista no Conselho de Ministros. Desconfie dos empresários que o procuram. Não confie nos seus pares em Bruxelas. Diga duas vezes ‘não’ aos pedidos do PCP e três vezes aos do Bloco de Esquerda. E, acima de tudo, aprenda a dizer ‘não’ ao primeiro-ministro. Disso depende o seu futuro, e, mais importante, o de todos nós.

Termino com um desejo, relembrando as palavras de Vítor Gaspar depois de tomar posse: “Vou precisar de imensa sorte!” O senhor também.

Texto publicado na edição do Expresso de 14 novembro 2015