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Expresso

E se não vendessem o Novo Banco?

A Fosun comprou a Fidelidade por €1,1 mil milhões. A Fidelidade investiu mil milhões em dívida da Fosun e mais €300 milhões em imobiliário espalhado pelo mundo. Imóveis que ninguém conhece e papel comercial cujo risco é elevado. O supervisor dos seguros diz que está tudo bem. Que não há problema em pegar nas poupanças dos portugueses e enviá-las para a China, Austrália ou Japão. Não sou cliente da Fidelidade, mas se fosse não queria o dinheiro do meu PPR investido em dívida da empresa que gere esse mesmo PPR.

O supervisor que garante que é tudo transparente e de acordo com as regras é o mesmo que foi convidado para ir falar num seminário da Fosun em Xangai, a título pessoal, que tirou férias para o fazer e que até pagou do próprio bolso a deslocação e estada durante três dias. E ninguém acha estranho. Pois eu acho. E muito.

E se eu disser que há um banco que usa a sua gestora de fundos e a sua rede de balcões para vender aos seus clientes dívida das empresas que são detidas por quem gere o banco? Se calhar assim já é estranho? O que a Fosun fez não é diferente do que aconteceu no BES e que acabou por levar à destruição do grupo e do banco.

Quando se está a falar da maior seguradora portuguesa a situação ganha ainda contornos mais preocupantes. A Fosun afinal comprou a Fidelidade com o pelo do cão. Faz lembrar a maneira como Champalimaud nos anos 80 pagou o Banco Pinto e Sotto Mayor passando um cheque do próprio banco que tinha acabado de comprar.

As empresas chinesas já compraram o sector elétrico português e preparam-se agora para ficar com 20% do sistema bancário (Novo Banco) a juntar a 25% dos seguros. Espero que quem está a decidir esteja certo que este é o melhor caminho a seguir. O caso BES já causou demasiados danos. É melhor garantir que ficam por aqui.

Com a queda abrupta das praças asiáticas, com o que aconteceu na Fosun, com o facto das propostas apresentadas para comprar o Novo Banco não serem lá grande coisa, se calhar era melhor esperar.

Todos tinham a ganhar. O Banco de Portugal, cuja experiência a vender bancos é nula, ficava com mais tempo para garantir uma melhor proposta e melhores candidatos. Vender depressa e bem não há quem. O Governo adiava a venda para depois das eleições escapando ao embaraço de o fundo de resolução ficar com um buraco gigantesco. E a gestão do Novo Banco, além de manter os seus empregos, podia continuar a recuperar o banco, tarefa que ainda mal começou.

Pensem bem. Não é de todo uma má ideia.