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Aparelho de Estado

Que rumo para a Educação?

O Ministério da Educação parece pretender que a nossa confiança na escola pública seja uma questão de fé.

Alexandre Homem Cristo

O Ministério da Educação está a ponderar uma reorganização dos currículos para os 2º e 3º ciclos escolares. O que se sabe até ao momento não deixa augurar nada de bom: pretendendo reduzir a carga horária dos alunos, que têm 14 disciplinas (!), o ME equaciona tornar semestrais as disciplinas de História, Física-Química e Ciências Naturais.

Estamos perante um exemplo típico da falta de visão nas políticas educativas. Comunicam-se as políticas, mas não são explicadas as suas razões nem os seus objectivos. E as consequências são obviamente tremendas: com o desconhecimento das motivações de uma ideia tão duvidosa como diminuir a carga horária de disciplinas centrais para a formação dos alunos, é inevitável suspeitar que existam intenções facilitistas, naquela mesma linha de educar para as estatísticas. Mesmo que não seja esse o caso (infelizmente é provável que o seja), a simples suspeita inviabiliza o sucesso das políticas. Sem compreendê-las, como podem pais, professores e escolas trabalhar em conjunto em vista de um mesmo fim?

Neste caso em concreto, há três questões fundamentais para as quais não se tem resposta:

(a) o que significa ter muita carga horária? Há algum estudo que diga que a actual carga horária prejudica os alunos? Ou seja, de onde vem a decisão de reduzir a carga horária?

(b) porque que é que só se fala em reduzir a carga horária, e nunca em aumentá-la, nomeadamente a Matemática e a Português, sabendo-se, ainda por cima, que Portugal é o país na UE que tem menos carga horária para a língua materna?

(c) quais são os critérios de selecção das disciplinas a tornar semestrais? Porquê História e não outra qualquer? Porquê reduzir os currículos científicos (Ciências naturais e física-química) em vez de reduzir os das artes, por exemplo?

Quem determina os rumos da nossa Educação não nos diz quais são, porque os definiu, e que resultados espera atingir. O Ministério da Educação parece pretender que a nossa confiança na escola pública seja uma questão de fé. Lamento, mas não se pode deixar a educação dos nossos filhos dependente de uma fé numa escola que ninguém conhece. Se quer reformar com sucesso, o ME tem de fazer o básico, i.e. explicar às pessoas os porquês da mudança. As opções educativas em Portugal têm de deixar de ser um mistério para os professores, alunos, pais e para todo um país que sabe que de uma boa educação depende o seu futuro. Perante um descrédito crescente, a escola pública só teria a ganhar se os seus arquitectos optassem pela transparência.