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Aparelho de Estado

"Parlamento rejeita actualização extraordinária das bolsas de investigação "

Ou de como enquanto sociedade premiamos mediania sobre excepção.

Miguel Caldas (www.expresso.pt)

Uma cáfila de idiotas, deixada, a pastar em sossego no Parlamento, tem o poder de decidir, quanto é que os elementos mais qualificados da nossa sociedade devem receber.

Este tipo de incongruência é explicado pelo tal do mandato popular que esta gente tem por virtude de terem ingressado num partido politico. Deduzo que seja isto a que chamam democracia.

Democracia, aparentemente, é a organização social que é regida pela mesma lei que organiza a velocidade de movimentação de uma manada de herbívoros: os últimos marcam o passo da manada.

Ora se isto tem vantagens para transportar gnus pelas planícies Africanas é menos claro que benefícios trará à organização das sociedades humanas.

Na realidade o que a democracia garante é, que através do nobre objectivo de ser o mais inclusiva possível, as nossas sociedades sejam vistas sempre pelo máximo denominador comum.

Este modelo garante que a visão do mundo do "homem comum" (abstracção perniciosa) seja a prevalecente, porque se crê ser a mais representativa da sociedade.

Isto implica que o debate politico nunca se possa fazer sobre assuntos, e nos termos, que as pessoas mais inteligentes, informadas e preparadas o fariam, já que a sua condição de excepção os diferencia da maioria que é suposto ser o motor social de uma democracia.

Na verdade, de forma a garantir que o debate seja o mais abrangente possível, este tem de ser algo que interessa aos que nada sabem e que nada querem saber, por desinteresse, dificuldades económicas ou por limitação genética.

Isto explica o triste espectáculo politico que presenciamos diariamente, e que tem como consequências (entre outras) as seguintes:

  • Discurso pobre e repetitivo - Não, a culpa não é do marketing politico. É uma técnica para passar informação a pessoas que se supõe estarem "nas filas de trás" da inteligência.

  • Ideias e projectos políticos desfasados no tempo - De forma a garantir que todos irão perceber um ponto de campanha (porque as ideias politicas só têm corporização como pontos de campanha), é importante que toda a gente os conheça de antemão. Isto faz com que todas as ideias tenham de estar há muito no zeitgeist, antes que algum politico lhe toque.Com isto garante-se não só que as soluções encontradas serão abrangentes, bem como perfeitas para dar resposta a problemas que tínhamos há 20 anos atrás.

  • Figuras públicas ausentes de qualidades - Para além da capacidade técnica de se moverem no meio partidário, a maioria dos políticos não parecem ter outras capacidades discerníveis a olho nu. A natureza amorfa dos putativos representantes sociais não cria resistências no público. Procura-se a capacidade de se apagar numa multidão. Não precisa de ser visto para ganhar eleições. Quem ganha eleições é o partido.

  • Conflitos sociais onde os interlocutores são entidades sociais sem relevância - Da mesma forma que os partidos representam uma resenha de tudo aquilo que Portugal pensou há duas ou três décadas, estes procuram parceiros que estejam no mesmo fuso temporal que eles. Ver Sindicatos e Grupos Católicos.

Isto tudo para dizer que não é casual mas sistémico o facto dos deputados (que são uma espécie de segunda linha dos partidos, que por sua vez são uma espécie do primo estúpido de uma família que lê pouco) tenham achado por bem não aumentar as bolsas de investigação de ciência enquanto continuam a acreditar, sinceramente, que estão a combater o "brain drain"e a valorizar os recursos humanos do país.

Isto não é cinismo, é uma dificuldade cognitiva.

A mesma dificuldade cognitiva que persiste em achar que o endividamento público se combate com gasto público, à Keynes circa 1964.

Que não tenhamos duvidas.

Não são os políticos que destroem a democracia, é a democracia que faz os maus políticos.

E aceitar isto faz de nós todos culpados.