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Os gregos ainda não viram a "big picture"

Enquanto jantava, vi, ontem, a notícia de uma greve geral na Grécia. Uma turista interrogava-se sobre a lógica de um país naquele estado proceder desta forma. A dúvida não existia e pergunta era retórica - não há lógica.

Tiago Moreira Ramalho (www.expresso.pt)

1. Os gregos só têm uma alternativa: aceitar a situação a que se deixaram chegar e fazer de tudo para voltar atrás. Este fazer de tudo, obviamente, não se compatibiliza com paralisações gerais e com posições chantagistas. Este fazer de tudo significa um duche frio, para acalmar a ressaca, fazer a barbinha e ir para a rua procurar trabalho.

2. Claro que nós, europeus, achamos que temos de nos amparar uns aos outros no matter what. Um sistema de preferências aduaneiras, uma moeda comum, livre-trânsito de pessoas, bens e mais uns trocos não bastam para "ajudar" ou, melhor, "entre-ajudar". É preciso, pelos vistos, salvar os irresponsáveis do descalabro financeiro. É preciso, pelos vistos, pensar naqueles que, sempre que puderam, se esqueceram de nós. E nós, agora apenas os portugueses, também fazemos parte do grupo de "esquecidos" permanentes.

3. Concorde-se ou não com as ajudas, a verdade é que pouco se pode fazer: elas vão avante. As populações, pelos vistos, não querem saber e os únicos verdadeiramente sérios em toda esta questão foram os alemães, provavelmente por serem uma solitária formiga no meio de um baile de cigarras cantadeiras. Esta inevitabilidade do "salvamento" - para o qual Portugal vai contribuir, ironicamente - impõe apenas, por uma questão de decência, que os camaradas europeus da Grécia tenham o decoro de agradecer ou de, pelo menos, não gozar com o resto do continente. Alguém lhes devia explicar isto, porque esta postura, mais que ridícula, é insultuosa.