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O Professor Paulo Sérgio não é a má pessoa que querem fazer dele

Lourenço Cordeiro

Bom, com que então o Rui Pedro Soares recusa-se a falar. Acho muitíssimo bem; acho tão bem que isto deveria ser exemplo para todos os nomes envolvidos no escândalo ___________ (preencher com qualquer um dos escândalos em que Rui Pedro Soares e as outras pessoas todas estão envolvidas): recusar-se a falar. De Sócrates a Figo, calavam-se todos. Ficávamos todos a ganhar. Obrigado Rui Pedro.

Por outro lado, o Professor Paulo Otero (que eu não sei que é) escreveu um enunciado num exame de uma faculdade de direito que está a indignar o Vasco e, a fazer fé no que o Vasco escreveu, a traumatizar os pobres alunos. Não me espanta que já não esperemos de um aluno universitário uma mente estruturalmente adulta e relativamente apta a lidar com as adversidades da vida, mas mesmo assim considero que o enunciado do Professor Paulo Otero (que eu nem sabia que existia) é de facto inaceitável e traumatizante para todos os defensores do casamento de pessoas do mesmo sexo (atenção, eu defendi o casamento de pessoas do mesmo sexo), porque expõe, no artigo 1º, a fragilidade de grande parte dos argumentos "técnicos" da causa. Dou o benifício da dúvida ao Professor Paulo Otero (de quem nunca tinha ouvido falar) no que concerne ao artigo 2º, pois imagino que a questão da bestialidade está ali para puxar a linha divisória da argumentação para um local onde é mais incoveniente que ela esteja para as pessoas com quem o Professor Paulo Otero (quem?) está a tentar dialogar.

Se é relativamente pacífico que é inaceitável que um homem case com a sua cadela, já é muito mais difícil argumentar sobre a diferença estrutural entre o casamento poligâmico e o casamento entre pessoas do mesmo sexo ("homossexual" daqui em diante para facilitar), e se o Professor Paulo Otero ("Paulo Sérgio" daqui em diante para facilitar) quis fazer alguma maldade ideológica terá sido esta: dizer, pouco subtilmente, que o casamento entre duas mulheres é moralmente equivalente ao casamento entre duas mulheres e um homem (que, se me perguntam, parece ser bastante mais interessante do ponto de vista conceptual). Este é que é o incómodo. O Professor Paulo Sérgio não quis comparar dois gays a dois veados (esta foi intencional): o Professor Paulo Sérgio quis, eventualmente, demonstrar a fragilidade dos argumentos de defesa da causa do casamento homossexual expondo a sua adequabilidade à ideia de casamento entre várias pessoas de vários sexos. Isto é que incomoda quem foi sempre tão militante da causa do casamento homossexual, porque geralmente os militantes da causa nunca quiseram admitir que a causa é importante porque eles querem que assim seja. Não, o que os militantes da causa sempre defenderam foi que o casamento homossexual era um imperativo ético, social, político e jurídico. Até um certo ponto, era, mas a partir de determinado ponto retórico o casamento gay é apenas uma questão que nós achamos que tem de ser, e isto é que o destinge do casamento poligâmico, que nós não achamos que tem de ser.