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Expresso

Aparelho de Estado

O nosso submarino amarelo

Os portugueses parecem viver, como na música, numa espécie de submarino amarelo, protegidos do mar de corrupção que os envolve e cheios de alegria negligente. É uma coisa nossa.

Tiago Moreira Ramalho

A cadência, diria ritmada, de casos de corrupção ou possível corrupção que tem servido de banda sonora à nação é coisa de estudar. Se o leitor tiver a bondade e, mais importante, a disponibilidade, porque vai precisar, para se recordar de todos os casos de corrupção a envolver políticos e, em particular, titulares de órgãos de soberania na última meia dúzia de anos perceberá que no fim ficamos com um vazio tremendo. Curamos umas com as outras. Tratamos do problema político da tentativa de controlo dos órgãos de comunicação social repescando o caso dos submarinos. Funcionamos nestes ciclos que nada têm de virtuosos e não parecemos querer tirar deles qualquer consequência.

Sejamos objectivos: não é razoável encarar como "normal" que escândalos de corrupção a envolver quem dirige a política nacional possam ser, simplesmente, encobertos por novos escândalos até que deixem de ser "notícia" ou motivo para "comentário". O problema é da Justiça, que apenas é independente em teoria, e também de cultura. É uma coisa nossa. Não estamos para nos chatear, mas deveríamos. E isso faz-se com pequenas coisas como esta.

Não é tampouco razoável que pessoas envolvidas em escândalos de corrupção possam ocupar cargos de alta responsabilidade. Para os cidadãos comuns, aplica-se a máxima de que mais vale um criminoso em liberdade que um inocente na prisão. Mas para os políticos a coisa fia mais fino. Na política, mais vale um inocente fora do Parlamento que um culpado lá sentado. A decência deveria bastar para que titulares de órgãos de soberania visados em processos judiciais se afastassem, mas, pelos vistos, não chega e, como tal, deveríamos fazer mudanças ao regime que permitissem um Estado decente mesmo quando os seus agentes o não são.

Claro que, mais fácil que tudo isto é permanecermos no nosso colorido submarino, alheados do resto e complacentes com a selvajaria envolvente. A contrapartida, querido leitor, é que não nos poderemos queixar quando tivermos água pelo pescoço.