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Aparelho de Estado

Não somos o Brasil

Da mansidão da tia de Louçã nada sei, mas da mansidão dos portugueses sei um pouco mais. Sei que é suficiente para aceitar o que hoje aconteceu no Parlamento sem um pingo de indignação.

Tiago Moreira Ramalho (www.expresso.pt)

O que se viu hoje no Parlamento português é o tipo de episódio que só vemos nos livros de História, no tempo em que os deputados além do bigode se faziam acompanhar pelos revólveres, e nos "parlamentos" dos países terceiro-mundistas. José Sócrates e Francisco Louçã não são Cidinhas Campos. Ou melhor, eles até podem ser Cidinhas Campos; nós é que não somos o Brasil.

Há um bom par de séculos, Tocqueville alertava para o facto de os regimes democráticos, através do sufrágio universal, tenderem a elevar um certo tipo de escumalha - a mais desenrascada, supõe-se - para a direcção dos negócios do Estado. Nós, os portugueses, parecemos levar aquele misto de observação com profecia à letra. Legitimamos gente desta a cada consulta e, prevê-se, nada mudará nos tempos que se avizinham.

A verdade é esta, caro concidadão: o comportamento de Louçã e Sócrates, mais que a mediocridade política e intelectual de ambos, é inaceitável num Estado pretensamente desenvolvido. E, sendo óbvio que estas Cidinhas caseiras não corrigirão os comportamentos numa base voluntária, torna-se imperativo corrigi-los à força. Comece-se por uma alteração no sistema eleitoral, que nos permita algum rigor na escolha dos deputados, e depois logo se vê o que se faz mais.