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Garzón e os republicanos silenciados

Garzón tem simbolizado a luta pela recuperação do rosto dos silenciados, mais de cem mil homens e mulheres que o franquismo fuzilou e fez desaparecer.

Miguel Cardina (www.expresso.pt)

Os recentes episódios em torno de Baltazar Garzón têm contornos jurídicos e políticos difíceis de compreender para quem vive do lado de cá de Valença. E certamente não podem ser desligados da personalidade controversa do juiz e da sua acção ao longo dos anos, cultivando fortes simpatias e inimizades virulentas. Mas o fio da história é fácil de sintetizar em traços largos: a pedido de famílias e associações dedicadas à recuperação da memória histórica, Garzón, na qualidade de membro da Audiência Nacional, decidiu investigar os milhares de republicanos desaparecidos durante a guerra civil e o franquismo. Existem estimativas que apontam para cerca de 114 mil vítimas. Homens e mulheres que o franquismo teimou em exterminar mesmo depois de terminada a guerra civil. Boa parte deles, esclareça-se, ainda estão literalmente cobertos de pó e lama, em locais mais ou menos adivinhados.

Entretanto, o juiz Varela veio esta semana dar seguimento às queixas de três organizações de extrema-direita e acusou Garzón de "prevaricação" por pretender investigar matéria para a qual não estaria habilitado. O New York Times referiu o assunto em editorial, mas as coisas podem não estar fáceis para Baltazar Garzón, que para já arrisca-se a ser suspenso. As associações de recuperação da memória histórica já sublinharam o facto do juiz Varela enviar à sociedade uma perturbante mensagem: quem pretender a partir de agora investigar os crimes do franquismo irá sentar-se no banco dos réus. Garzón apresentou hoje mesmo recurso da decisão do Tribunal Supremo, ao mesmo tempo que acusou Varela de ser um veículo de perseguição ideológica.

Não deixa de ser irónico que o grande argumento usado para acusar Garzón e colocar um tampão sobre o passado franquista seja a lei da amnistia de 1977, que funcionou como um instrumento para que se operasse uma transição relativamente indolor entre a ditadura e a democracia. Na verdade, uma anestesia política que agora permite aos herdeiros da primeira calar aqueles que, em nome da segunda, perderam tudo - a vida, o nome, uma história. E quando o luto não se cumpre, o passado arrasta-se num eterno presente, sempre por cumprir. Escusado será dizer que uma sociedade que assim vive será sempre uma sociedade menos justa e mais bloqueada.

Já vai sendo tempo, portanto, do Estado espanhol olhar de frente este seu passado. A lei aprovada em 2007 foi um passo importante, mas a batalha pela memória e pela dignidade das vítimas continuará. E diz respeito a todos nós, quanto mais não seja porque foi pela democracia e pela República que aqueles espanhóis se bateram. Quando me falarem do Centenário da República, é disto que também me vou lembrar.