Siga-nos

Perfil

Expresso

Aparelho de Estado

Esquerda e Direita

Quando estávamos a fazer o vídeo para a apresentação do Aparelho de Estado, pediram-me para descrever, numa palavra, o que era ser de esquerda. Respondi: optimismo. Não gosto da resposta, mas foi o que espontaneamente me saiu. Dito assim, parece que a esquerda (a minha esquerda, pelo menos) precisa de ser temperada com realismo - e o realismo é a direita, claro. O optimismo, ingenuidade, idealismo são tipicamente associados a um certo tipo de carácter individual, um temperamento caracterizado por voluntarismo excessivo e irresponsável, que não reconhece os condicionalismos do real e a verdade da natureza humana.

Quando as pensamos as pertenças ideológicas deste modo, isto é, através de atitudes subjectivas, é inevitável que a análise política se transforme num derivado da psicanálise. Curar o esquerdismo - ou o direitismo - passaria, assim, por compreender as causas (traumáticas, claro) de tal fixação. O Paulo Tunhas, por exemplo, fez uma análise deste tipo quando procurou "compreender" aquilo que ele pensa ser a Posição da Esquerda Face ao Terrorismo (assim, em maiúsculas). A sua conclusão é óbvia, pois já estava implicitamente contida no modo como decidiu abordar o tema: quem é de esquerda ainda não conseguiu ultrapassar os traumas da infância, e recusa-se a reconhecer a realidade dos factos. E assim se reduz uma opção política a uma deficiência cognitiva, a uma espécie de patologia.

Reparem como se pode fazer um exercício semelhante para a direita. Todas as putativas virtudes da direita - responsabilidade, realismo, sobriedade, cepticismo, prudência - podem ser reduzidas a traumas, recalcamentos e fobias. Mas será que interessa ir por aí no debate esquerda-direita? Não será um caminho estéril? Penso que sim. Para além da inevitável desqualificação do adversário, o problema principal da "psicologização" do debate político é que este tende a esquecer uma coisa fundamental: a realidade que uns e outros usam para atirar à cara do adversário é ela própria um objecto de interminável debate político.

Aquilo que realmente distingue a esquerda e a direita não é uma atitude emocional subjectiva perante um universo objectivo de factos. O que nos distingue são as narrativas contraditórias sobre o nosso passado, presente e futuro. Ou seja, interpretações contraditórias sobre a nossa condição ou realidade histórica. Para que um debate entre esquerda e direita não se transforme numa gritaria estéril entre claques, torna-se absolutamente necessário que exista uma permanente tarefa de mediação e, eu sei que isto é piroso, reconhecimento do Outro. Por outras palavras, sem mediação a política reduz-se a uma luta pelo poder, onde só se contam espingardas.

Achar que as coisas podem ser diferentes do que são é, perdoem-me o auto-elogio, um favor que a esquerda faz à direita. Sem querer desqualificar ninguém, a direita tende a concordar com Hobbes, que tem uma visão sombria e pessimista da existência humana e que desvaloriza a dimensão criativa do debate democrático. Em política, diz-nos Hobbes, só conta o poder e o combate pela preservação da vida. Isto é pouco animador e impõe certas opções políticas como sendo necessidades. A esquerda discorda, pois não aceita qualquer tipo de visão fatalista da realidade social. A esquerda tende a olhar para a realidade e a ver também possibilidade: o futuro não é nem tem de ser uma interminável repetição do presente. Mas é preciso acrescentar o seguinte: eu acho que a direita não tem razão, não porque estejam errados, mas porque a responsabilidade e a liberdade humana não são compatíveis com qualquer tipo de resignação fatalista. A esquerda deve dizer à direita que a realidade e a natureza humana, que eles tanto sacralizam, não está inscrita no cosmos nem existe independentemente de nós. Era bom que a direita fosse capaz de aceitar isto, e que reconhecesse, de uma vez por todas, a irredutível responsabilidade humana pela sua condição e pelo seu destino colectivo. (cont.)