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E agora, Bloco de Esquerda?

Num momento em que o PSD se reconstrói, o Bloco de Esquerda continua a adiar o seu crescimento.

Alexandre Homem Cristo (www.expresso.pt)

(1) Nestas últimas legislativas, o BE conseguiu um resultado eleitoral fantástico porque ganhou eleitores naturais à ala esquerda dos socialistas, que não se reviu nas políticas de José Sócrates. Ou seja, o bom desempenho eleitoral do BE deveu-se à má imagem do Governo de Sócrates. Isto significa que o BE, enquanto se mantiver um partido de protesto, continuará mais dependente da imagem pública do PS do que de si próprio.

(2) O programa eleitoral do BE para as últimas legislativas foi publicamente trucidado. Simplesmente porque a possibilidade do BE se poder tornar no parceiro de Governo do PS fez subir as suas responsabilidades. O facto de ter ficado à beira desse objectivo (?) foi, digamos, uma grande sorte, porque manifestamente o partido não estava preparado e ganhou tempo para se preparar. No futuro, se tiver a ambição de crescer, o BE terá que apresentar um programa eleitoral de partido de governo.

(3) Ora a oportunidade que ganhou para se preparar não está a ser aproveitada. Se quer continuar a crescer, o BE tem de se 'desradicalizar'. Como? Começando por assumir-se internamento como um partido democrático, mudando a sua liderança. Por duas razões. Em primeiro lugar, porque o BE nunca conheceu outro líder, pelo que não é de estranhar que frequentemente o partido seja compreendido como o projecto pessoal de Louçã. Aliás, Louçã monopoliza o partido nas decisões-chave: veja-se como, recentemente, Louçã decidiu sozinho que o BE apoiaria Manuel Alegre, e agora tem de, internamente, calar aqueles que viam em Fernando Nobre o melhor candidato. O BE está, neste momento, refém do ego de Louçã. Em segundo lugar, porque com Louçã o BE nunca poderá suavizar o seu discurso, nem oferecer ao partido a consistência ideológica de que necessita. Não o fez nos últimos dez anos, não é agora que o fará. Nesse aspecto, José Manuel Pureza, que se identifica mais com uma 'esquerda cosmopolita', já demonstrou ser um pouco mais responsável e moderado, tanto politica como ideologicamente.

(4) O futuro do BE deve centrar-se numa questão-chave: o BE quer ou não ser um partido de poder? É a resposta a esta pergunta que deverá guiar o futuro próximo do partido, e a eventual mudança na sua liderança.