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Expresso

Aparelho de Estado

Devemos alimentar os surfistas?

Uma sociedade justa garante a sobrevivência de quem não quer trabalhar, mas tem de desincentivar essa opção.

Rui Passos Rocha

Uma sociedade que se preze não deixa ninguém morrer de fome, garante um mínimo indispensável à subsistência. Mas uma sociedade que se preze também incentiva a que o maior número possível trabalhe, pelo bem comum - quantos mais trabalham, mais se redistribui. Se o primeiro ponto é uma questão de decência, aceitar o segundo é menos comum; há quem pense que é o dever de um Estado garantir aquele mínimo independentemente de incentivar ou não a que se trabalhe.



Num artigo de 1999, Pedro Adão e Silva responde "claramente, sim" à pergunta "devemos alimentar os surfistas?", dizendo que "garantir a todos um mínimo de recursos será o caminho para permitir a todos viver de acordo com a sua própria vontade". De acordo. Mas Adão e Silva nada escreve sobre incentivo ao trabalho e fica a ideia de que o seu mínimo seria superior ao indispensável para a mera sobrevivência, já que fala tanto das desigualdades e da pobreza subsistente no país.



Não acredito que uma camada significativa da população recorresse ao mínimo estatal se esse valor fosse suficientemente baixo para a desincentivar. É por isso que estou de acordo com a ideia do mínimo, para quem não vive para trabalhar, mas discordo que ele deva ser um valor confortável e, por isso, desincentivador. Devemos alimentar os surfistas? Sim, mas o surfista que imagino não é bem o que ia na mente do Pedro Adão e Silva.