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Défice de anciãs

Vasco M. Barreto

Os signatários do texto Um Compromisso Nacional, que o Expresso publicou em exclusivo, formam um grupo ecléctico de portugueses notáveis: antigos Presidentes da República, ex-ministros, reitores das principais universidades, Prémios Pessoa, os dois arquitectos galardoados com o Pritzker, empresários e artistas, entre outros. A amplitude etária abarca 2 ou até 3 gerações (os 2 elementos mais novos, com 54 anos, podiam em teoria ser netos do mais velho, Manoel de Oliveira, que tem 102 anos), mas a média etária é cerca de 70 anos. Esta geração não assumia tamanho protagonismo desde 1991, quando o Prof. Manuel Sérgio arregaçou as mãos e deu ao Partido da Solidariedade Nacional quase 100 000 votos. Os nossos senadores ficaram-se pelo magistério de influência, mais adequado ao seu estatuto, oferecendo ao país um texto em que pedem um compromisso aos políticos em actividade. Talvez tenhamos aqui testemunhado uma concentração de prestígio acima da massa crítica a partir da qual é impossível impedir a reacção em cadeia que leva à perda de bom senso. Porque o resultado final é pífio e o prestígio do grupo fica aquém da soma do prestígio dos seus elementos.

Entre amigos, ou seja, entre pessoas da geração anterior, o texto foi recebido com grande irritação. Na geração ainda mais nova, admitindo que alguém terá lido o texto, a impressão só terá sido diferente para pior. Se a ideia era apaziguar a crescente tensão social, (don't) try again.

Há um problema de legitimidade: alguns dos signatários, que não aproveitaram outros momentos de crise para fazer as míticas "reformas estruturais", vêm agora exigir de outros um compromisso que eles não cumpriram. Directa ou indirectamente, alguns são também responsáveis pelo estado em que o país se encontra. 

Há o problema da desconfiança generalizada. Afinal, estamos diante de um gesto voluntarioso (sempre são 6 parágrafos) de gente desinteressada e que só pensa no bem do seu país ou de um simples ritual de manutenção do estatuto adquirido? 

Há também um problema de conteúdo. Na alínea b), a única parte do texto com alguma substância política, pede-se uma "maioria inequívoca". Ora, uma "maioria inequívoca" deve ser "maioria absoluta" em langue de bois, um modo mais neutro de fazer passar uma ideia cujos contornos não ficam absolutamente definidos mas neste caso o suficiente para irritar. Porque, como se não bastasse estarmos perante as eleições em que o cidadão mais sente o futuro condicionado por Bruxelas, é como se os anciãos viessem roubar-lhe ainda mais a pouca autonomia que o voto ainda lhe dá. 

Há ainda um problema de tom. A alínea a), em que se pede "capacidade de execução de um plano de acção imediato" é o que temos ouvido de toda a gente, há semanas. Originalidade e oportunidade: zero. Quanto ao resto, exigir "um nível de informação objectiva sobre a realidade" durante as eleições quando é sabido que nem antes das eleições houve informação objectiva ilustra bem o desfasamento com a realidade. Ouvir o discurso já ao ataque de Sócrates e ler imediatamente a seguir o texto dos senadores faz com que o tom grave da prosa ganhe uma candura infantil.

Há, por fim, um problema de imagem. Dos 47 signatários, só 5 são mulheres; destas, 2 representam os maridos falecidos (Mota Pinto e Ernâni Lopes). Ou seja, o grupo que nos escreve sobre os desafios que a sociedade enfrenta é quase talibânico no desequilíbrio de género. Não é uma surpresa. Um conselho de anciãos que reúna espontaneamente e não esteja condicionado por leis de paridade é uma fotografia da sociedade de há 30 ou 40 anos. Por isso, sem ter grandes ilusões quanto ao contributo que os ilustres da minha geração vão dar quando se reunirem daqui a 30 ou 40  anos para repensar o país, algo terá melhorado substancialmente - embora talvez não o défice -  se nesse grupo houver mais mulheres.