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Com a Igreja, não

Fico com os nervos em franja quando vejo uns meninos de missa do galo arranharem a garganta a gritar contra a corrupção, por exemplo, e a assobiarem para o lado quando lhes falam em padres e bispos pedófilos.

Tomás Vasques

Para quem, como eu, não professa nenhuma religião, a vinda a Portugal do Bento XVI, o chefe máximo dos católicos, é um acontecimento de menor importância que o próximo Mundial de Futebol. Sei, pelos jornais, que o dirigente religioso que nos visita, em Maio, está a atravessar um mau momento por supostamente a sua Igreja ter encoberto, durante décadas, actos de pedofilia praticados por padres, bispos e afins em quase todos os países do mundo. Como sei, também, que se discute, no Vaticano, a origem de tais práticas: o celibato ou a homossexualidade. E sei, ainda, que grupos de cidadãos portugueses querem distribuir preservativos à saídas das missas a celebrar pelo Papa e outros preparam-se para participar nesses rituais com bandeiras negras em sinal de protesto pelas posições e pelos desmandos do clero de obediência romana. Acho bem. E até acho pouco. Há quem leve isto à conta de anti-clericalismo militante. Assim seja. Mas não me venham dizer que o que vale na contestação ao poder político não vale para o poder eclesiástico. Fico com os nervos em franja quando vejo uns meninos de missa do galo arranharem a garganta a gritar contra a corrupção, por exemplo, e a assobiarem para o lado quando lhes falam em padres e bispos pedófilos. A tratar gente eleita democraticamente como foragidos, enquanto beijam o rabinho ao clero, como se os primeiros fossem filhos de prostitutas, e os outros filhos da virgem Maria. Aqui, entre nós, humanos, ninguém foi concebido sem "pecado". Se quiserem benesses, tenham paciência, aguardem a chegada ao "reino de Deus".