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Expresso

Aparelho de Estado

Caro Vasco,

Por exemplo, Bush

Lourenço Cordeiro

Tens razão. Estamos a maçar as pessoas. Vamos então a uma história. 

A situação hipotética que traças para a minha pessoa aconteceu não há muito tempo. Estávamos em 2003, os aliados (Estados Unidos da América e Reino Unido e mais alguém?, não me lembro) tinham acabado de invadir o Iraque. Em 2003 calhou eu ter uma cadeira de Direito do Urbanismo que veio a revelar-se não apenas numa cadeira de Direito de Urbanismo mas também uma cadeira de Introdução ao Direito. O professor era o espectacular (sem ironia nenhuma) Doutor João Miranda (do clã Miranda), que não só era um poço sem fundo de sabedoria sobre Urbanismo como também nos tratava por "senhores". Ora bem, naquelas aulas todas em que não se falava de Direito do Urbanismo (de longe as mais interessantes), o tema da Guerra era recorrente. As aulas eram uma espécie de fórum TSF erudito (q.b.), e não segredo para ninguém que o Doutor João Miranda - bem como 93% do auditório - era contra a Guerra (para simplificar), justificando essa sua posição não só através de argumentos políticos mas também através do "Direito Internacional". Ora, na altura eu não era contra a Guerra - era bastante a favor da Guerra - e tive dois ou três dissabores durante essas aulas (o riso de escárnio dos meus amigos - sem ironia - militantes do Bloco ainda hoje ecoa na minha cabeça). Os dias foram passando, Bush deu lugar ao Regime Jurídico da Urbanização e Edificação, até que chegou o exame. E, como esperado, lá estava a pergunta que visava avaliar os conhecimentos de Direito dos alunos:

"Comente, à luz do Direito Internacional, a invasão por parte dos Estados Unidos da América (sic) ao Iraque."

Mais coisa menos coisa. Ora, eu tenho sincera admiração pelo Doutor João Miranda, e tenho a certeza que um aluno que expusesse com mérito a tese de que a invasão era totalmente legítima não veria a sua nota prejudicada. Mas pelo sim pelo não (era o último ano e eu já não queria chatices), decidi ensaiar um mini-panfleto anti-Bush, "à luz do Direito Internacional", sem por um momento sentir que estava a comprometer a minha, enfim, whatever. Fiz a cadeira com 15 valores e fui à minha vida.

Não quero comparar a Guerra do Iraque com a questão da identidade sexual. Mas acho que esses alunos são, desculpem-me, parvos. Perante a oportunidade de fazer ver ao professor o seu ponto de vista, decidiram expor o "enunciado" como prova de um crime qualquer que evidentemente só existirá se se vier a provar a parcialidade na valorização dos exames conforme o conteúdo das respostas. Se, por hipótese, só passarem os alunos que defenderem a equiparação moral do casamento homossexual à bestialidade, então vamos lá todos linchar o tipo. Como as coisas estão, acho isto tudo uma grande patetice.