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As coisas são diferentes no estrangeiro.

Repararam como foi abordada a questão da imigração no debate entre candidatos a Primeiro-Ministro na Grã-Bretanha?

Vasco Campilho (www.expresso.pt)

Para mim, foi das coisas mais interessantes do debate de ontem (que apenas vi parcialmente). A questão vinda do público era algo do tipo "Como criar um sistema de imigração mais justo?" e a pessoa que a colocou era uma mulher, jovem, e claramente identificável como oriunda da imigração.

Contrariamente ao que seria a minha expectativa, os três candidatos interpretaram a questão no sentido de "como apertar mais a malha à imigração ilegal", ou mesmo de "como reduzir os fluxos de imigração para a Greã-Bretanha". O líder liberal-democrata, Nick Clegg, ainda tentou um arremedo de amnistia - ao fim de dez anos de permanência irregular em solo britânico e com uma pena de trabalho comunitário em troca da legalização - aliás severamente criticada tanto por conservadores como por trabalhistas.

As soluções apontadas para o problema são divergentes: Gordon Brown defendeu um sistema de pontos que impediria a imigração de trabalhadores extra-comunitários sem qualificações; David Cameron uma política de quotas anuais de imigração. Tirando a amnistia, não percebi bem o que defendeu Clegg nesta matéria. O que percebi é que para os três, mais justiça queria dizer menos imigrantes. O que achei curioso, mas não pareceu espantar ninguém na assistência - nem sequer a jovem que colocou a questão.

Outra vertente curiosa do debate sobre foi quando se debateram os números da imigração. Cameron explicou que antes dos trabalhistas, o saldo migratório máximo tinha sido de 70 000 imigrantes ano, quando com os trabalhistas nunca baixou dos 140 000. Não era um elogio.E Brown não tomou os números como tal, e esforçou-se para convencer o público de que as políticas mais duras implementadas nos últimos dois anos já estavam a reduzir a imigração. Estranhamente, não ocorreu a ninguém que face aos números citados, o ciclo económico explica bem melhor a flutuação do fluxo migratório do que as políticas governamentais.

Em Portugal, há quem não goste de ver muitos imigrantes na rua, mas a generalidade das forças políticas não dá eco a essa sensibilidade. Preocupa-nos mais a emigração, e até o facto de os imigrantes começarem a deixar o nosso País para trás é visto como mau sinal. De facto, as coisas são mesmo diferentes no estrangeiro.