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Expresso

Aparelho de Estado

Abril e o excesso

A direita portuguesa continua a ter dificuldade em olhar Abril de frente.

Miguel Cardina

Não há curva de Abril para Maio que não nos mostre a dificuldade da direita em lidar com o momento revolucionário inaugurado pelo 25 de Abril. Exemplos não faltam. Basta pensar no entendimento da revolução como "evolução", ensaiada pelo último governo PSD/PP, ou na proposta para tornar feriado nacional o 25 de Novembro, muito cara a Alberto João Jardim. Aguiar Branco tentou agora uma nova forma de releitura, bem esmiuçada pelo Zé Neves, e que consistiu em consensualizar de tal forma a data que a única coisa que passa a existir é uma espécie de cinzento apolítico.

Curiosa é também a coluna de opinião que Vasco Pulido Valente (VPV) assina hoje no Público. Concedendo que Abril trouxe "liberdade bastante" e "Estado providência" - uma novidade, o Estado providência estar no campo das "coisas boas" - VPV lamenta o facto dos militares, em vez de promoverem de imediato a descolonização e a realização de eleições, terem deixado que o "Partido Comunista e alguns loucos desirmanados" transformassem o pronunciamento militar numa revolução. Os danos da aventura foram tão profundos que só a pouco e pouco se foi conseguindo alguma "normalidade". VPV adianta mesmo um novo ponto a partir do qual a coisa começou a entrar nos eixos: a revisão constitucional de 1989.

O problema desta interpretação não é apenas o de estruturar o reconhecimento do legado desse momento histórico a partir do que os militares deveriam ter feito. Isso seria apenas um erro epistemológico. O mais curioso é o modo como ela revela uma vez mais a recorrente incapacidade das elites portuguesas em pensar o povo como actor histórico, mesmo quando ele, como um louco desirmanado, ia tomando o poder e recriando a vida. Pois é: tenho muita pena, mas a democracia existe por causa da revolução, e não apesar dela. Podia agora fazer um relambório sobre o modo como a democracia portuguesa se foi constituindo através das conquistas desse período, mas prefiro deixar aqui um parágrafo de um excelente texto escrito pelo Luís Trindade em 2004 na revista História:

"Ironicamente, a derrota da revolução talvez seja a única forma de pensar hoje o salazarismo, essa sua profundidade orgânica, estrutural, e portanto a sua sobrevivência. É esta sobrevivência que, por sua vez, dificulta pensar-se o 25 de Abril, concedendo-lhe uma espécie de desforra: como se o PREC, enquanto negativo de uma dinâmica social sem densidade, estranheza numa existência política vazia, se mantivesse irredutível a um discurso democrático meramente institucional e portanto preso a uma incapacidade atávica de transformar a realidade. O atavismo não deixa pensar o PREC, mas o PREC obriga a pensar o atavismo como atavismo. Neste sentido, Abril, enquanto acontecimento na contemporaneidade portuguesa, não pode ser visto senão como excesso."