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A vida e morte da Democracia

Em A vida e morte da Democracia, publicado pela Edições de 70, John Keane faz, ao mesmo tempo que um trabalho histórico notável, uma profunda reflexão sobre o tipo de regime que domina o nosso tempo.

Tiago Moreira Ramalho (www.expresso.pt)

Começando com o nascimento da Democracia de Assembleia, que situa na Mesopotâmia e não na tradicional Atenas, John Keane faz uma autêntica viagem ao longo de mais de dois mil anos, recolhendo, com um grau de detalhe que por vezes pode parecer excessivo, factos e pequenas histórias dentro da grande história da Democracia.

Fundamentalmente, Keane divide o processo em três fases distintas e em quase todas nos dá uma perspectiva algo revolucionária sobre o objecto tratado.

Na primeira fase, a da Democracia de Assembleia, Keane relata-nos como foi o nascimento do regime e como ele se sustentou e chegou, alterado, é certo, aos territórios confortáveis dos tempos recentes. É extraordinário o facto de, segundo o autor, a democracia ter sobrevivido e chegado até nós através dos muçulmanos. O próprio título deste capítulo é notável: "Para Oeste através do Leste". Foi pela mesquita, lugar de culto, mas também de reunião do povo, que o "espírito democrático", digamos assim, subsistiu. Não tivessem sido os muçulmanos e, muito provavelmente, a democracia seria uma simples memória inscrita em cacos cerâmica nas margens do Egeu.

Na segunda fase, a da Democracia Representativa, o grosso do volume, o autor explica-nos como foi o complicado processo de desenvolvimento de um sistema que pouco tinha que ver com a Democracia de Assembleia. Keane situa o nascimento da representatividade democrática, algures no início do segundo milénio, no Norte da Península Ibérica. Foi, segundo o autor, um produto do desespero, da ameaça iminente da conquista de todo o território ibérico pelos muçulmanos. Com o leve toque de ironia, Keane diz mesmo que "foram os muçulmanos os responsáveis pelo aparecimento dos parlamentos". Claro que o caso espanhol das cortes e tantos outros, como o da "democracia aristocrática" polaca, não foram afirmações definitivas do sistema representativo. Longe disso, aliás. Foi nos Estados Unidos que, na realidade, a Democracia Representativa se afirmou e foi a partir daí que teve a sua verdadeira expansão.

Na terceira fase, a da Democracia Monitorial, Keane apresenta a parte que, a meu ver, é a mais interessante da obra. Detalha com um rigor impressionante a forma como, actualmente, as nossas democracias funcionam. Os contrapoderes, ao contrário de ontem, são cada vez mais provenientes da sociedade e são cada vez menos alvo de sufrágio. É a era dos blogues, dos think-tanks, dos colunistas, etc. Este é, provavelmente, o capítulo mais reflexivo, por contraposição aos outros que são, grosso modo, relatos históricos.

É esta junção entre reflexão política e relato histórico, escrito de uma forma notável, que faz deste livro indispensável. Em mais de um século, esta é a primeira história da Democracia e o facto é este: compreender a nossa forma de organização política e social passa, indubitavelmente, por conhecer a sua história.