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A política da salvação ou a salvação da política

Só a política nos pode salvar, diz o ex-aparelhista João Galamba. De acordo. Mas antes é preciso salvar a política.

Vasco Campilho (www.expresso.pt)

É bem verdade que a desesperada situação financeira que Portugal defronta neste momento (e que, mais do que em spreads e em ratings, se resume nesta constatação do Ricardo Arroja - é muito provável que em 2010 os juros pagos pelo Estado português aproximem os 8 mil milhões de euros e que passem a representar entre 25% e 27,5% das receitas fiscais previstas este ano em Portugal) não pode ser analisada à luz do maniqueísmo que faz do nosso País um estroina e da Alemanha um modelo de virtudes. Ou por outra, pode - de facto a estroinice imperou por cá nos últimos 15 anos, de facto a Alemanha soube restaurar a competitividade da sua economia depois de uma década de 90 difícil - mas isso não nos leva muito longe.

É bem verdade que a crise financeira de Portugal é antes de mais um sintoma da crise política do euro. Como o explica António Nogueira Leite, esta crise política só poderá ser resolvida criando condições para que a garantia implícita de bail out criada pelo euro se torne explícita, o que implica fortes ajustamentos nas economias mais fracas mas também uma revisão da governança europeia e um impulso para uma maior integração política.

É bem verdade, portanto, que só a política nos pode salvar, como argumenta o João Galamba. Mas primeiro temos que salvar a política de algumas ilusões. Como a ilusão de que insultar as agências de rating faz alguma coisa pela nossa situação. Não: quanto muito ajuda a desopilar os fígados. Ou como a ilusão de que a explosão da dívida pública foi virtuosa porque serviu para salvar a economia da crise financeira. Não: em Portugal a dívida explodiu porque a receita fiscal afundou, não porque o Estado tenha aberto assim tanto os cordões à bolsa.

Temos, fundamentalmente, de salvar a política da ilusão de que se pode autonomizar da realidade, e fazer as suas opções no puro reino da ideologia, ou pior, no puro reino do engate eleitoral. Não: a política tem que olhar de frente para a realidade, não para a ela se submeter, mas para com ela lidar. E a realidade com que Portugal tem que lidar é séria, porque está em jogo simultaneamente a credibilidade económica e política do País, nas frentes interna e externa. Precisamos por isso de lideranças que não enterrem a cabeça na areia. Espero que à saída da reunião entre o presidente do PSD e o primeiro-ministro haja sinais claros de que temos essas lideranças.