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A ignorante erudição de Carlos Vidal

Qualquer pessoa que conheça minimamente o percurso de Richard Dawkins sabe que algo correu mal. Infelizmente, um dos mais brilhantes divulgadores de ciência transformou-se no ateísta mais famoso do planeta e iniciou uma cruzada contra as religiões. É um direito seu, mas que não dá a ninguém o direito de transformar a ciência numa caricatura. Foi o que fez Carlos Vidal, o crítico de arte.

Vasco M. Barreto

A forma como Carlos Vidal compara a arte e a ciência assenta em 3 equívocos. O primeiro - e o menos interessante - é tornar a discussão refém de propósitos corporativos ou de uma guerra de civilizações. Não há necessidade, pois não se está a discutir a atribuição de dinheiros públicos à arte e à ciência e o ateísmo não é o braço armado da ciência na luta contra as religiões.

O segundo equívoco de Vidal é não ser capaz de entender a ciência como um processo criativo, que depende muito mais da imaginação do que ele julga. Vidal limita-se a descrever a ciência a partir do que a ciência produz e não dos processos a que recorre.

O terceiro equívoco de Vidal é não ser capaz de perceber que a ciência não esgota o "mistério", a "beleza" e a "transcendência" do universo. Ao entendermos o que contemplamos, o prazer não diminui. É aliás muito bizarro que um crítico de arte pense dessa forma. Será que um maestro, por conhecer bem a obra que dirige, é menos capaz de a apreciar que o simples ouvinte? Eu diria que sucede precisamente o contrário. Mas justiça seja feita a Vidal, pois este equívoco é uma constante entre os artistas. Enfim, talvez esta resposta - hoje clássica - de Richard Feynman o esclareça.

Há ainda uma segunda razão que não torna a ciência inimiga do mistério. Ainda que Vidal estivesse certo e a ciência, à medida que fosse conquistando o universo, o transformasse numa terra queimada, sobraria sempre uma zona raiana, que é a fronteira entre o conhecido e o desconhecido, precisamente o lugar onde a ciência gosta de estar. Por outras palavras, os problemas que a ciência resolve criam novos problemas. O "mistério" em ciência é uma entidade dinâmica e não se conserva como um segredo que não devemos ousar desvendar, sob pena de descobrirmos que, afinal não havia nada. Pelo contrário, mais do que regenerar o mistério, a ciência amplia-o e dá-lhe novas facetas. Nenhum cientista gosta de ficar a contemplar o que descobriu; ele vira-se sempre para os outros lados, que lhe são desconhecidos e que só passaram a existir por causa da sua descoberta.