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A ideia do candidato da sociedade civil sobrevive

Vasco M. Barreto

É consensual que o homem que pedia um tiro na cabeça acabou por fazer o serviço sozinho, embora apontando a pistola para o seu próprio pé. Não há em Portugal quem apoie a decisão de Fernando Nobre, o que há é gente indignada (os que votaram nele), gente divertida (os que sempre desconfiam dos candidatos anti-sistema) e gente a tentar limitar os estragos que a decisão de contratar Fernando Nobre pode causar ao PSD.  

Nobre não se livrará da imagem do deslumbrado pelo poder e do mentiroso que há umas semanas "categoricamente" afirmava a sua recusa em aceitar o convite de um partido depois das eleições presidenciais. A indefinição das suas ideias políticas, que antes ainda poderia passar por capacidade para pensar fora da divisão clássica entre esquerda e direita, é agora apenas um sinal de oportunismo. E a sua falta de preparação técnica para a política, antes uma garantia de um percurso feito fora dos partidos, passou agora a prova de incompetência. Mas importa menos o futuro de Fernando Nobre do que o futuro da ideia do candidato da sociedade civil, que Alegre e Nobre se esforçaram por destruir.

Ao contrário do que escreve Pedro Lomba, há uma diferença essencial entre as candidaturas presidenciais de Alegre e de Nobre. Alegre apropriou-se da imagem do candidato anti-sistema depois de o sistema lhe fechar as portas, enquanto Nobre tinha currículo para se assumir como um verdadeiro candidato da sociedade civil. Se formos capazes de pensar o caso Nobre além da actual campanha para as eleições legislativas, é evidente que as grandes semelhanças entre Alegre e Nobre são o excelente resultado que ambos obtiveram nas eleições presidenciais e a traição que o tropismo partidário subsequente representou para quem os elegeu. O que dá esperança a um adepto da ideia do candidato da sociedade civil é que, se houve Nobre, apesar de Alegre, haverá no futuro mais alguém, apesar de Nobre. 

Os críticos desta ideia dizem que se trata de uma utopia perigosa, capaz de dar um livre-trânsito a populistas. Não sendo uma crítica disparatada, teria mais força se não houvesse populistas e populismo dentro dos partidos. Há também a sensação de que o candidato não pode ganhar sem os partidos e que por isso se trata de um projecto intrinsecamente contraditório. O exemplo típico do projecto intrinsecamente contraditório é a banda anti-mainsrtream que ganha fama e fortuna e continua depois a escrever letras autobiográficas sobre a exclusão social. Ora, se repararmos, a raiz da contradição é o sucesso da banda e no caso do candidato anti-sistema a contradição surge mais facilmente com o insucesso. Basta lembrar que geralmente é preciso ganhar eleições para começar a não cumprir as promessas e que, nesse sentido, Nobre representava uma promessa especial, que mais depressa se atraiçoa sem ter poder do que depois de o conquistar.

Para o candidato anti-sistema, a desgraça vem quando ele não ganha e tem um resultado bom que desperte a cobiça dos partidos; é a morte na praia, mas que não vai além de uma desgraça pessoal. Com o país de rastos, continua a haver razões para pensar que daqui a uns anos Durão Barroso e António Guterres não estarão nas melhores condições para chegar à Presidência da República e que um candidato da sociedade civil, com prestígio e mais preparado dos que os anteriores, poderá ganhar e deixar o compromisso com o eleitorado protegido da ambição dos partidos.