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A espuma dos dias

O caso Face Oculta fez de Sócrates um "polvo". Entretanto, Paulo Rangel inventou no Parlamento Europeu que foi o primeiro-ministro a sugerir a censura da crónica de Mário Crespo, os jornais "informam" que a PT comprou para o PS fulano e sicrano, e dizem-nos agora que os tentáculos do governo chegaram aos blogs. Fica a impressão de que se fez o "polvo" e andam agora enchê-lo de espuma, como se fosse de pelúcia. Sócrates agradece.

Vasco M. Barreto

Uma das formas mais eficazes de comparar o carácter de dois povos com idiomas distintos é inventariar as palavras que não têm tradução directa. "Accountability" é provavelmente o exemplo mais esmagador para os portugueses. Mas "whistleblower" também vai ganhando pertinência.



Um whistleblower é alguém que revela uma prática errada dentro de um determinado grupo a que geralmente pertence ou pertenceu; ele "faz soar o alarme" ou - em tradução literal - "sopra no apito". Distinguimos três tipos, definidos pelo carácter. O primeiro é o whistleblower impoluto: confrontado com a prática errada pela primeira vez, ele decide falar, mesmo que tal comporte riscos profissionais, sociais e/ou físicos. O segundo é o whistleblower arrependido: soterrado pela sua consciência, por também ele ter sido autor da prática errada, decide falar, assumindo os riscos. O terceiro é o whistleblower frustrado: ele resolve tramar o seu antigo grupo por julgar que não lhe deram o devido valor, bastando-lhe como recompensa a satisfação da sua má-fé. Este terceiro grupo divide-se entre aqueles que ostensivamente soam o alarme e os que fazem tudo pela calada. Curiosamente, para estes há um vocábulo em português: "bufos".



Cruzando os três tipos anteriores com a natureza da prática errada, obtemos uma matriz capaz de antecipar com precisão todos os cenários. Há práticas erradas que cobrem um vastíssimo espectro, estando todas descritas como crimes (abusos de poder, desvio de dinheiro púlbico, corrupção, etc.). Há práticas erradas para as quais não há moldura penal, embora sejam eticamente condenáveis (romper um acordo de cavalheiros, fazer insinuações, etc.). E há práticas que só parecem erradas num contexto de "diabolização", tanto assim que revelá-las noutras circunstâncias seria apenas embaraçoso para quem o faz.

Só pode viver numa realidade paralela quem se escandaliza por um blog de campanha da simpatia do partido que está no poder fazer uso das competências de assessores de governo. Estarão os assessores a gastar em campanha o tempo que deveria ser gasto a servir a população? Mas não é isso que fazem, durante a campanha eleitoral e fora dela, os líderes do governo? Aliás, visto que os blogs vivem sobretudo nos dias úteis, não será isto uma prova de que quase todos os bloggers se aproveitam dos recursos do Estado (ou de empresas privadas) para fins pessoais, mesmo quando não têm interesses partidários?* Estarão a abusar do erário público? Mas algum jornalista de investigação fez as contas? Montar um blog não custa dinheiro e todos os ministérios preparam documentos de propaganda/informação, mesmo se não houvesse blogs. Estarão os autores do blog a ser "comprados"? Mas alguém deixaria de usar uma informação útil para a causa que defende só porque a fonte é governamental? Estarão os autores do blog a ter acesso a informação privilegiada? Mas não é verdade que o que não puder ser anunciado e confirmado por outras fontes carece de interesse e logo, por definição, a informação privilegiada é útil nos negócios mas pouco interessante nas campanhas? Estarão estes assessores a fazer algo fundamentalmente diferente de preparar um ministro ou secretário de estado para um debate na televisão? Mas passa pela cabeça de alguém que durante as campanhas os assessores não perdem tempo com estas actividades? E sendo público que participavam assessores do governo no blog em questão, queriam que não escrevessem sobre o que sabiam como profissionais e apenas sobre aquilo que pensavam como cidadãos? Mas não andamos todos a rir com uma desculpa baseada em tal esquizofrenia funcional? You can't have it both ways. Qual era mesmo a notícia?

* Como sou funcionário público, esclareço já que esta entrada foi escrita a partir do meu computador pessoal e de casa, tendo ficado concluída por volta das 7 da manhã. A hora da publicação é mais tardia, porque pretendi ler a totalidade da notícia em questão antes de publicar a entrada. Nunca fiando.