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120 anos a aturar a vossa má educação*

"O Dalai Lama não deu direito a tolerância de ponto! Que raio de laicismo!" (De um comentário no Correiro da Manhã)

Lourenço Cordeiro (www.expresso.pt)

O Dalai Lama é um senhor vestido de cor de laranja que representa o movimento cívico ao qual aderem 29 pessoas em Portugal (peço desculpa por um eventual erro estatístico, confundo sempre os budistas com os vegetarianos). A Igreja Católica é a mais forte expressão de um das grandes três religiões mundiais que - ateus tapem os olhos - ajudaram a construir isto a que nós chamamos de "civilização". Em Portugal há muitos católicos. Muitos mesmo. Carradas deles. Estão por todo o lado. Infiltraram-se, inclusivamente, em muitos serviços públicos. Para um católico, a vinda do Papa ao seu país é um dos momentos altos da sua vida. Para mim, que sou um católico muito mas muito ténue, a vinda do Papa a Portugal é um dos grandes momentos da minha vida. É assim. Não disctutam, seus mal-criados, é assim mesmo. Posto isto, faz muito bem o Estado em dar tolerância de ponto aos seus funcionários, na sua maioria católicos (enfim, não estou aqui para discutir estatística), porque isso é o mais razoável a fazer do ponto de vista cívico. O braço armado do ateísmo responde que bastaria que todos os católicos tirassem um dia de férias para que não fosse necessário o feriado apressado. Ai é?, biltres, ai é? Atropelar-se-ia desse modo todas as regras internas que regulam os períodos em que os funcionários podem tirar férias? Qual seria a diferença entre dar tolerância de ponto ou permitir que toda a gente tirasse férias no mesmo dia? O que aconteceria aos poucos funcionários que não estariam dispostos a tirar o dia de férias mas que a isso seriam obrigados porque, sem os outros todos que não apareceriam para trabalhar, o serviço fecharia de qualquer modo nesse dia? Dias de férias forçados, é isso? Querem dar ainda mais voz ao Carvalho da Silva, é isso? E o utente, ó mal-criados, o utente que, por ser um dia igual aos outros, se dirigisse às finanças, ou à segurança social, ou à conservatória e visse constantemente as portas fechadas - apesar de ser um dia igual aos outros - porque toda a gente tinha misteriosamente tirado férias? Mas mais do que a dimensão prática do assunto espanta-me a dimensão simbólica que o braço armado do ateísmo está disposto a conferir ao caso: vocês querem trabalhar assim tanto, ou é só birra? É só birra, não é? Uh, a laicidade, a concordata, o meu ateísmo desrespeitado tão violentamente que eu não vou ser capaz de superar o trauma. Pronto, tiraram-me do sério. Vá, tenham lá juízo e um pouco de respeito pelo país que vos dá de comer.

* Tiago Guillul