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Sócrates: o retrato da decadência do debate político

O que surpreende é a ausência de consciência histórica e política de José Sócrates, quando irresponsavelmente se refere ao PSD como um partido cuja política é paralisante, e identifica a Direita (por isso o PSD) com "um certo espírito de salazarismo".

Alexandre Homem Cristo

O artigo de José Sócrates no Jornal de Notícias de dia 11 de Agosto é um texto cuja leitura se recomenda. Mais do que um manifesto político, ou uma apresentação do programa eleitoral do PS, todo o artigo é alimentado por comparações duvidosas e uma caracterização desonesta e conveniente do que é a direita política portuguesa, nomeadamente o PSD. As reacções estão por toda a blogosfera, e dizem mais ou menos o mesmo: é demagogo e é inaceitável identificar na direita uma herança salazarista.

Todo o artigo é construído na dicotomia progresso (PS) vs. passado (PSD), como se o futuro risonho fosse um projecto exclusivo ao partido socialista, e todas as restantes alternativas à direita fossem um regresso a um espaço temporal cinzento ao qual ninguém quer voltar. Ao realismo da direita, que Sócrates denomina de 'pessimismo', o PS impõe o discurso da confiança, o que é sem dúvida importante, mas que de nada serve quando não se tem noção das dificuldades que se enfrenta. A confiança, para ser efectiva, tem de se apoiar em expectativas reais.

Apesar de tudo, esta demagogia não surpreende. O que surpreende é a ausência de consciência histórica e política de José Sócrates, quando irresponsavelmente se refere ao PSD como um partido cuja política é paralisante, e identifica a Direita (por isso o PSD) com "um certo espírito de salazarismo". Quem não se lembra, por exemplo, das reacções do nosso Primeiro-Ministro quando muitos o acusavam de governar o país autoritariamente, que a vários artigos de opinião (até em blogues) respondeu com processos legais? É com essa mesma ligeireza com que censurava os seus críticos que Sócrates ataca a Oposição, identificando-a subtilmente com o regime autoritário de Salazar. É um golpe baixo, deliberadamente eleitoralista, sem ponta de verdade, mas que num país estigmatizado com uma ditadura dita de Direita funciona. Infelizmente.

É um facto já muitas vezes referido que não é fácil ser-se de Direita em Portugal. A memória ainda fresca do regime de Salazar permite o recurso fácil de identificar a Direita ao autoritarismo. É, sobretudo, um raciocínio popular, enraizado nos discursos do dia-a-dia, que entrou no discurso das nossas elites políticas. E como qualquer simplificação desonesta, empobrece o pensamento político que se faz em Portugal. Mas, note-se, é uma simplificação que nem sequer tem qualquer relação histórica, nomeadamente com aqueles que ajudaram a formar a direita portuguesa, como Pacheco Pereira e Marcelo Rebelo de Sousa, só para apontar dois nomes bem conhecidos no actual contexto nacional e que fizeram igualmente parte da oposição ideológica ao regime de Salazar.

Nada justifica que se possa admitir de um Primeiro-Ministro, representante máximo dos portugueses, este tipo de declarações. É um facto que o nível do debate político em Portugal é baixíssimo, e que tudo vale para caracterizar o adversário, excepto argumentos 'políticos'. Mas que esse vício nacional esteja vincado na atitude de um Primeiro-Ministro não pode ser apenas um facto que se lamente. Há um sinal claro do estado do debate político em Portugal quando um Primeiro-Ministro aposta na estratégia do medo - que a direita suba ao poder - para relembrar aos eleitores a importância de votar no seu partido. O vazio do discurso político é cada vez mais evidente, e pior só mesmo a impunidade com que isso acontece. O artigo de 11 de Agosto de José Sócrates no JN é isso mesmo, um sintoma desse vazio e dessa impunidade.