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António Costa. Um conveniente desmentido

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Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor da SIC

E ao sétimo dia António Costa desmentiu o apoio a Sampaio da Nóvoa. Mas o líder socialista não o fez de viva voz e podia tê-lo feito, até porque no sábado esteve em duas cerimónias onde havia jornalistas. Mas não, Costa preferiu esperar que Nóvoa falasse às televisões para depois dizer à SIC (numa declaração não gravada) que a notícia do Expresso era falsa. Costa e Nóvoa, se não estão concertados, andam muito acertados.

Neste desmentido começo por estranhar o timing. Porquê agora? Na semana passada, o Expresso já noticiava, citando elementos da equipa que prepara a candidatura de Nóvoa, que o apoio socialista já era dado como garantido. Porque é que Costa nada disse durante todo este tempo? E Sampaio da Nóvoa porque não desmentiu nessa altura? Porque não disse então o que agora garantiu: que "nunca, nunca, nunca" tinha tido esse apoio (que também a TVI deu como certo)? Porque não reagiu quando esta sexta-feira o Expresso o informou sobre a manchete deste sábado?

Na segunda-feira passada, quando António Costa falou sobre a candidatura do ex-reitor, pela primeira e única vez, não quis fechar o assunto. O líder do PS não negou, nem sequer desmentiu as notícias do alegado apoio socialista. Antes pelo contrário, disse que apenas se pronunciaria quando houvesse candidatos. Ponto final.

A verdade é que a António Costa só agora lhe interessava desmentir a história. Para acalmar o partido. Para recuperar a paz socialista. Para retomar o rumo das Legislativas. A má gestão deste processo deixou os socialistas a ferro e fogo e deu um confortável sossego ao Governo. O caminho que tudo isto levava, tornava-se trágico para o partido e para o seu líder.

António Costa quis ensaiar, testar, Sampaio da Nóvoa. Se tivesse informado o PS desse apoio, formalizava-o. Alargava a decisão. Responsabilizava o partido. Nas lideranças há decisões que se tomam sozinho ou em 'petit comité'. O problema foi o que se seguiu: as notícias sobre a candidatura e a rejeição do partido. A declaração de Sérgio Sousa Pinto foi a primeira das reações alérgicas ao ex-reitor. Era o momento para se distanciar. O desmentido calhou na perfeição. Costa não dava a cara para não se queimar mais. E o ex-reitor reforçava-se como 'independente'.

A nega de Guterres ajuda a recentrar o discurso nas legislativas. Mas sem Guterres que alternativa há a Sampaio da Nóvoa (que ainda para mais pode ser útil nos entendimentos pós-legislativas)? Gama já disse que não. Costa não quer Maria de Belém. E António Vitorino tem um álibi que o ajudou a afastar-se da corrida: é um homem de negócios. E não nos esqueçamos que o ex-reitor é o candidato de Mário Soares (mais um imposto por Soares?). E poderá também ser a escolha dos ex-presidentes Jorge Sampaio e Ramalho Eanes.

Vejo António Costa na televisão, mas continua sem dizer, de viva voz, que não apoia Sampaio da Nóvoa. O mais provável é que, mais tarde ou mais cedo, o líder socialista acabe por assumir o ex-reitor como o candidato do PS. A não ser que tenha outra solução para apresentar. Carlos César tem andado particularmente ativo. Mas para já tem servido apenas para bater palmas ao candidato que o PS não apoia. Alguém entende?