Siga-nos

Perfil

Expresso

Pedrógão e o governo das culpas dos outros

Depois das revelações do “Expresso” e do “i”, o primeiro-ministro e os ministros saíram à rua como uma estratégia muito bem definida: desmentir a existência de listas secretas e centrar as atenções no Ministério Público. Ao mesmo tempo, nas redes sociais, está em curso (mais) uma campanha contra os jornalistas. Os anónimos, com cartão de militante, que escrevem nessas páginas acusam os jornais das “mais rebuscadas teorias da conspiração”. Nada de novo, portanto.

O Governo tem-nos habituado a este registo. Tudo o que é mau é responsabilidade dos outros: do governo anterior, da PGR, de Bruxelas, dos jornais, de Belém, das duas caras das esquerdas, da Alemanha do sr. Schäuble, da PT (da Altice), da chuva que nunca mais cai. Enfim, a culpa é de toda a gente menos de quem nos governa. Aliás, para Costa, as polémicas fazem pouco sentido. São mesmo desnecessárias. E percebe-se porquê, para ele estão sempre “encerradas” e “esclarecidas”. O problema são as que não estão nem encerradas, nem esclarecidas.

O Governo parece não ter percebido como as coisas mudaram com Pedrógão. O nível de tolerância para os erros e trapalhadas alterou-se radicalmente. Há um antes e um depois. Não basta encomendar estudos de opinião, pôr os ministros todos a falar, silenciar os comandantes distritais ou atirar o ónus para a “companhia” de telefones (privatizada nos governos em que foi ministro). Entrar nesta lógica de jogo político é arriscado porque, como se está a ver, faz ricochete. Se há dúvidas sobre o número de mortos, não podemos dizer no sábado que está tudo “esclarecido” e na segunda admitir que poder haver mais mortos não registados. A não ser que o PM já nos esteja a preparar para a existência de outra contabilidade.

Por respeito às vítimas e seus familiares, António Costa devia ser o primeiro interessado em ver tudo explicado. Mas, além de não responderem às perguntas (como tão bem relata o jornal Público de hoje), o que vimos foi uma atabalhoada ministra da Administração Interna - e curiosamente também o da Defesa -, cuja autoridade está claramente abalada, que, em vez de nos sossegar, deixou-nos ainda mais confusos. Imaginem como ficaram os que perderam os seus familiares na tragédia.

A marca de Pedrógão não se apaga. Ficará tatuada na pele deste Governo. E por todos os motivos devia ser alvo de uma gestão sem mácula. António Costa sabe, até pelo seu passado recente, que é melhor cortar o mal pela raiz do que andar a reboque dos acontecimentos. Vejam o caso dos secretários de Estado que viajaram à boleia da Galp. O que Costa não fez na altura teve de fazer um ano depois: demiti-los. Mas podemos também lembrar a história de Lacerda Machado, em que o PM lá acabou obrigado a contratar. Ou o caso de Centeno, que culminou com o assumir de um “erro de perceção mútuo”. Ou o SIRESP, que depois de Pedrógão voltou a falhar em Alijó. Ou a MAI, que Costa preferiu agarrar apesar de todas as debilidades e do verão quente que se aproxima.

Nestas e noutras polémicas, o primeiro-ministro tentou sempre pôr um ponto final. Numa lógica de fuga para a frente, empurrando com a barriga até que caísse no esquecimento. Mas agora é diferente, tem de ser diferente, há 64 mortos (oficiais) e esses não podem ficar perdidos numa guerra indigna de fuga à responsabilidade.

Os jornalistas podem ser, e são, culpados de muita coisa, mas não nos atirem areia para os olhos. Esclareçam tudo. O erro foi não o terem feito logo de início.