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Expresso

Sr. Presidente, ponha ordem no paiol!

O assalto a Tancos e a tragédia de Pedrógão vieram interromper a marcha triunfal de António Costa. Mostraram um governo descoordenado e frágil na reação à crise. E um primeiro-ministro que, em vez de dar a cara, preferiu manter-se nas areias quentes de Palma de Maiorca. Marcelo mostrou-se ao comando. E distribui recados. De cima a baixo, tudo tem de ser investigado. A fatura virá mais tarde?

Depois dos 64 mortos de Pedrógão, o Estado voltou a falhar em Tancos. Se nos incêndios ficou clara a total descoordenação (e negligência?) de quem nos devia proteger, o assalto ao paiol revelou ao mundo a fragilidade da nossa segurança interna. Afinal, por cá, nem os militares sabem guardar um quartel.

Pergunto-me de que nos serve ter um pouco mais de rendimento ao fim do mês e ver o Salvador Sobral conquistar a Eurovisão, quando o Estado que nos representa não está onde devia estar?

Agora começou o tempo político do passa-culpas. Na praça pública, num total desrespeito pelas vítimas dos incêndios, vimos as autoridades digladiarem-se com relatórios desafinados. E na outra frente, os militares atiram a matar ao poder político. Azeredo Lopes só podia estar no centro do alvo. Mas também já se faz pontaria a Marcelo. Os militares esperavam ficar debaixo da asa presidencial, mas o chefe de Estado trocou-lhes as voltas ao deixar claro que não há imunidades: tudo tem de ser investigado.

A inabilidade de Azeredo Lopes na gestão deste caso é por demais evidente e falta perceber até que ponto as suas (in)decisões estão na origem do que aconteceu. Se há responsabilidades políticas tem de haver consequências. Mas, tão ou mais relevantes são as explicações que têm de ser dadas pelo Exército. Não basta culpar a quebra continuada do orçamento. O desinvestimento nas Forças Armadas é real, mas não deve ser o único a assumir responsabilidades. Afinal foram eles, os militares, que não souberam evitar o assalto. Pior: o roubo pode ter tido ajuda de dentro do paiol.

A mácula tomou conta de uma instituição que não estava habituada a tanta exposição. Corporativos e fechados sobre si próprios, os militares têm sido notícia pelas piores razões. Reparem na sucessão infernal dos últimos tempos: chefias militares detidas por suspeitas de corrupção, mortes nos Comandos, a polémica no Colégio Militar e agora este assalto. São casos que contribuem para a imagem de uma instituição que se mostra apodrecida pelos esquemas tão típicos dos pequenos poderes. Uma instituição com chefias a mais e tropas a menos. Desatualizada. Agarrada a um status-quo que se julga (ou julgava?) intocável.

O Presidente, e Comandante-Supremo-das-Forças-Agora-Um-Pouco-Menos-Armadas, faz bem em exigir que se investigue tudo. Perante o que se passou, ninguém está dispensado desse escrutínio. Nem os homens fardados, nem os políticos. Mas essa é uma exigência que pode fazer ricochete. A fatura será também entregue a Marcelo que fica obrigado a apresentar-nos resultados. Esta encenação dos 5 comandantes “exonerados temporariamente” de pouco nos serve.

Hoje, por causa das nossas desgraças, vivemos num Estado menos soberano e com notáveis particularidades: o primeiro-ministro que nos devia estar a mostrar do que é capaz, está a banhos. O Presidente mostra-se ao país como executivo. E os militares “abrem”a porta aos ladrões. O melhor mesmo é ir de férias... Pode ser que entretanto alguém ponha ordem no paiol!