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Expresso

A geringonça e o desafio das “boas notícias”

A generalidade das sondagens publicadas nas últimas semanas diz-nos que, se as eleições fossem hoje, o PS de António Costa podia alcançar a maioria absoluta. É verdade que a esta distância das legislativas, que só acontecem em 2019, o quadro traçado é meramente teórico mas não deixa de ser importante para os cálculos políticos.

Estamos em ano de autárquicas, as primeiras eleições da era da geringonça, e o fato de o PS aparecer com tão boa performance eleitoral, quase 10 pontos acima do que conseguiu em 2015, deixa as esquerdas inquietas. Em outubro, além da eleição do poder local, os portugueses vão também dizer o que pensam sobre a solução de governo. PCP e BE não querem ser vistos apenas como verbos de encher. Sobretudo quando o governo que sustentam apresenta bons resultados económicos - e o PS se reforça nas intenções de voto.

Com o "vigoroso” crescimento económico trimestral, que deverá continuar ao longo do ano, o primeiro-ministro está a ser confrontado com mais exigências das esquerdas. Mas os desafios não se colocam apenas a António Costa. Na verdade, o sustento da geringonça também está em exame. É preciso que os portugueses sintam nas carteiras os bons resultados da economia. Ou seja, BE e PCP têm de conseguir ir mais longe na devolução de rendimentos. Não foi para isso que derrubaram a direita?

Catarina Martins revelava há dias, numa entrevista à Antena 1, um indisfarçável incómodo quando lhe falaram da maioria absoluta do PS e da continuidade da solução governativa: não somos um “par de jarras”, respondeu. É óbvio que as esquerdas não fazem falta nenhuma se os socialistas alcançarem essa maioria. Só que o problema é anterior: comunistas e bloquistas precisam fazer prova de vida. Afinal de contas, pouco crescem nas sondagens, ao contrário do PS de António Costa que aparece sempre a somar.

Para Jerónimo e Catarina, o dilema agrava-se se pensarmos no que foi alcançado. É verdade que o afastamento da direita foi a grande conquista, mas no curriculum das esquerdas passou a constar a viabilização de um governo afinado com Bruxelas, focado nos défices mais baixos da democracia e com orçamentos austeritários. Já para não falar da hipótese (muito alimentada pelo próprio) de ter o ministro das Finanças a presidir ao tão “odiado” Eurogrupo. Tudo isto pesa quando é preciso separar as águas.

Os sinais dos tempos são já evidentes. As posições de força começam a desenhar-se. Mariana Mortágua faz exigências no Financial Times e, aos poucos, as greves e manifestações regressam às ruas e aos diretos televisivos. Nos próximos meses, por causa das autárquicas, a corda vai esticar. É preciso satisfazer os eleitorados. BE e PCP precisam de ganhos para justificar o desvio e o discurso. Costa e o seu Governo não podem ser os únicos beneficiados.

Quando o crescimento de 2,8% foi revelado, Marcelo Rebelo de Sousa pediu para que não se embandeirasse em arco. Ao fazê-lo, não só quis refrear a excitação socialista como também “ajudou” o primeiro-ministro dizendo ao país (e às esquerdas) o que António Costa não disse: não ficámos ricos num ápice! É um facto que as coisas estão a correr melhor, mas agora é preciso ter a arte e o engenho para gerir esta “crise de boas notícias”. BE e PCP não querem ficar “a ver navios" e Costa tem de mostrar que não anda a reboque das ingerências da esquerda. A geringonça está sólida. A maioria absoluta ainda é um “sonho”, mas pode ser real.