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Expresso

De sufoco em sufoco. Europa: até quando?

Parece que a cada eleição nos põem uma corda ao pescoço. É uma esquizofrenia diabólica: “Maldita democracia!” que teima em colocar-nos tão próximo do perigo. Eles, os extremistas, pressentem o nosso medo. O nosso desespero. A nossa descrença. É disso que se alimentam. França ganhou com Macron, mas a Europa não pode apenas respirar de alívio. É tempo de tirar ilações. O perigo não vai desaparecer.

Esta segunda-feira acordámos todos mais descansados. Sobretudo nós, europeus. Com a sua caminhada rápida e infalível, Emanuel Macron arrumou Marine Le Pen. Mas as eleições deste domingo não são propriamente um virar de página. A esperança que nos traz a vitória de Macron é frágil. Le Pen continua lá e com mais 35% de músculo e retórica. Na verdade, com o seu discurso extremista, islamofóbico e ultranacionalista, a líder frentista conseguiu perto de 11 milhões de votos, quase dobrando o resultado do seu pai em 2002. Podemos olhar para estes números e ver apenas a derrota da extrema-direita. Mas essa é, em minha opinião, a leitura errada dos factos da noite. O capital conquistado por Le Pen não pode ser menosprezado. Os seus quase 11 milhões de votos dão-nos uma certeza: ela não vai desistir.

Além dos votos de protesto (e foram muitos), o crescimento da extrema-direita, como seria de esperar, aconteceu sobretudo nas zonas mais deprimidas do norte do hexágono, onde o desemprego e a baixa escolaridade foram (e são) terreno fértil para os argumentos incendiários da frente nacional - Le Pen consegue também bons valores em algumas zonas do sul porque os eleitores mais velhos e endinheirados vivem em pânico com os magrebinos. Nada de novo, portanto. Tirámos retrato semelhante nos Estados Unidos com Trump no chamado “rust belt” ou nas eleições na Holanda ou no conseguido Brexit. A falta de condições de vida da chamada “working class” é o melhor combustível para o fogo dos extremistas. Junte-se o medo, a sensação de abandono, a desconfiança face aos emigrantes e a cada vez maior distância do poder de Bruxelas (e do poder da capital) e temos o caldo perfeito.

Mas não são só os 11 milhões de Le Pen que nos servem para constatar a enorme insatisfação gaulesa. A alta taxa de abstenção, de 25,38%, foi a maior numa segunda ronda desde 1965. Além disso, os votos brancos ou nulos, de quase quatro milhões, foram também recorde. Todos estes sinais são importantes alertas. E não nos chegam só de França. No Reino Unido foi o que foi. Na Holanda, Geert Wilders perdeu mas tornou-se a segunda força no Parlamento. Na Alemanha, a AFD ganha protagonismo. Em Itália, a Liga Norte ajudou à vitória do “não” no referendo. A Hungria de Órban continua a merecer pouco mais do que um assobiar para o lado de Bruxelas, etc etc.

Não podemos pensar, de uma forma simplista, que o discurso da extrema-direita foi derrotado só porque perdeu as eleições. Não, ele está a crescer. E cresce porque o projeto europeu está a minguar. Não basta proclamarmos os importantes valores que estiveram na sua origem e no seu desenho. É preciso fazer mais. A Europa da solidariedade, da justiça, da dignidade, da livre circulação tem de significar mais. A Europa tem de ser também da prosperidade e do crescimento. Sem uma economia robusta e alinhada entre os Estados-membros, nunca conseguiremos aniquilar os que sobrevivem do discurso fácil, rasteiro mas muito eficaz junto dos mais pobres. Eles dizem-lhes o que a Europa já não lhes diz. Eles vão às fábricas, aliviam-lhes os medos, falam-lhes na língua das vítimas da globalização, dão-lhes inimigos: Bruxelas e a imigração que lhe rouba os empregos.

Desta vez respiramos de alívio. Mas até quando? Se a Europa e os seus líderes não perceberem o que de facto se está passar, a chegada da extrema-direita nacionalista acabará por acontecer. Já faltou mais...