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Quem disse que Marcelo não quer Passos na liderança do PSD?

Nos inúmeros balanços que se fizeram de 2016, vários decretaram uma espécie de guerra fria entre os sociais-democratas Marcelo Rebelo de Sousa e Passos Coelho. Na verdade, no ano que passou, todos assistimos a remoques e a trocas de palavras menos felizes entre ambos. O episódio do feriado do 1º Dezembro foi o mais recente. É um facto que as relações entre ambos se deterioram. E é também óbvio que os estilos de um e de outro são radicalmente diferentes.

Passos é um hiperformalista, Marcelo é simplesmente… hiper.

Mas, como se costuma dizer, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou seja, não é pelo facto de um e outro alinharem muito pouco que Marcelo queira a saída de Passos da liderança do PSD. Ou ande nos bastidores a trabalhar nesse sentido.

Se Luís Montenegro, o ainda líder parlamentar do PSD, tivesse condições para desafiar o poder na São Caetano, Marcelo até poderia estar a jogar para esse campeonato. Mas o cenário é outro. A hipótese Rui Rio, que por ter sido avançada desta vez pelo próprio parece ser mais real, levanta várias questões ao Presidente. Dúvidas que podem mexer com o ativo mais importante alcançado neste primeiro ano de Belém: a estabilidade.

Rio, que tem vasta experiência autárquica, não tem experiência de Governo. E move-se numa espécie de permanente conflito. Vai criando inimigos por onde passa – já confessou que gosta de os fazer – e é daqueles políticos crispados que atua como se o mundo estivesse contra ele. No caso dos media, por exemplo, os episódios são recorrentes: como se os jornalistas tivessem como hobbie preferido truncar-lhe as ideias. Nunca pensando ele que o problema pode estar nas suas ideias. Por vezes pouco claras e várias vezes inflexíveis.

O ex-autarca do Porto aposta no “cortar a direito”: é a reforma do regime, a reforma da Justiça, a reforma de… Lisboa. E, de facto, diga-se, a realidade tem estado de feição. Das polícias ao Serviço Nacional de Saúde, o poder central apresenta-se infeto e apodrecido pela corrupção. Os casos são quase diários e para um político como Rui Rio, que combateu os poderes instalados do FCP (e de outros que dominavam a cidade), que vem de fora da capital e que se apresenta com um discurso populista e outsider, a doença do regime insufla-lhe a narrativa. Mas tudo isto, além de perigoso, não chega para governar o país. É uma agenda de palavras fáceis, mas sem grande substância. E se a isto somarmos a agitação na Europa, o que pode estar para vir com as eleições em França ou com a banca em Itália, o que se perspetiva não é famoso.

Mas nada disto é novidade para Marcelo. O Presidente conhece bem até onde pode ir alguém com o perfil de Rui Rio. Muitos anos antes de o ter ultrapassado nas presidenciais – ainda a corrida não tinha começado -, trabalharam juntos no PSD, Rio era seu secretário-geral e bateu com a porta zangado depois do polémico processo de refiliação do partido.

Entre o certo e o incerto, será que Marcelo não prefere Passos? Com o atual líder, o Presidente sabe que ou as coisas correm de facto mal ao Governo ou Passos terá sempre um discurso demasiado colado ao passado e desfasado de um país que não estando melhor aparece-nos melhorado. As perceções contam muito. Ou seja, continuará a ser um líder que resiste mas sem força para se impor à geringonça. Com Rio, o cenário pode ser diferente. Se ele aparecer, fá-lo-á num contexto pós-autárquicas, com o PSD a digerir uma derrota (é o que se prevê) e a precisar de sangue novo. Com Rio, o partido pode ganhar um novo élan e tornar-se um problema para a coligação de António Costa. E para a estabilidade de Marcelo e do seu mandato com olho na reeleição.

É claro que não é líquido que Rui Rio chegue para Passos Coelho. O ex-autarca tem pela frente algo que odeia: a rota da carne assada e o jogo de influências das distritais. E é preciso não esquecer que Passos, que não anda na política há dois dias, prometeu dar luta a quem se chegar perto. Mas todos sabemos como funcionam os partidos: se Rio lhes mostrar o caminho para o poder, Passos será rapidamente descartado.

Marcelo, que fala de tudo e de todos, ainda não tem o poder para mudar líderes do partido. Mas, certamente, já antecipou cenários e o almoço da semana passada, quem sabe, terá servido para reforçar a confiança presidencial num líder que se mostra desavindo. António Costa disse no verão de 2014, em entrevista ao Expresso, que o seu verdadeiro “adversário” era Rui Rio. Na altura, a declaração servia apenas para fragilizar o então primeiro-ministro Passos Coelho, mas hoje merece outra leitura. E, na verdade, já não é a primeira vez que vemos Costa acertar antes do tempo.