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Expresso

O que ganhou o PCP com a Geringonça?

Quem imaginaria, no Congresso de há quatro anos, que os comunistas iriam viabilizar um Governo do PS? A vitória da direita nas últimas legislativas explica muita coisa, era fundamental garantir que Passos Coelho e as suas políticas não voltavam ao poder. Mas Jerónimo de Sousa percebeu que embarcar nessa aventura - apesar dos muitos perigos - podia ser a oportunidade de mudar o rumo das coisas em favor da sua agenda e eleitorado. E do que o partido pretende para o país.

Com o apoio ao PS, o PCP teve de assumir uma contradição insanável: deixou de ser um mero partido de protesto e teve de aprender a viver – mesmo não concordando – com as imposições da Europa e do Tratado Orçamental. Muitos dizem que é o elefante que os comunistas tiveram de engolir, mas o partido responde que a possibilidade de devolver rendimentos se sobrepõe ao incómodo.

O PCP chega a este Congresso com uma frase que explica tudo: “quanto melhor, melhor!”. A máxima saiu da boca de Jerónimo de Sousa, no mesmo discurso em que quis confortar o partido com a “geringonça”, assegurando-lhes que não está em causa a identidade dos comunistas. Muitos recearam a perda de valores e a diluição dos velhos ideais. Mas esses foram sobretudo os que olhavam de fora. Internamente, esta prova de fogo tornou-se numa história com ganhos. Para sossegar os que ainda pudessem ter dúvidas, Jerónimo trouxe-lhes uma lista de conquistas: as 35 horas, os feriados, as reversões, os aumentos das pensões entre outras. O PCP aplaudiu. “Quanto melhor, melhor!”

Jerónimo de Sousa é o rosto desta nova fase. Para o bem e para o mal, é ele o responsável deste excecional virar de página. Para já, o popular líder comunista tem razões para sorrir, além dos ganhos que apresentou, percebeu que o acordo com o PS traria uma nova relevância política ao PCP. Os comunistas não só se tornaram peça-chave como passaram a influenciar a decisão. Ganharam um novo peso enquanto força política. E conseguiram estancar a perda de relevância dos sindicatos - fortemente ameaçados com a onda de privatizações nos transportes.

É certo que o partido também percebeu que o Bloco de Esquerda aparecia cada vez mais como uma ameaça, mas também aí o PCP soube fazer as coisas. Fez questão de separar as águas, assume-se como o parceiro fiável, e remete o BE para um lugar pouco confiável: um partido assente num “verbalismo” sem ideologia e que ameaça o terreno socialista. Com o Bloco a ultrapassar o velho partido nas últimas eleições, o PCP foi obrigado a assumir riscos, aparece agora alinhado - e até elogia o primeiro-ministro. É estranho? É, mas o partido não tinha outro caminho. E os comunistas assumiram-no de forma unânime. Não se ouvem críticas. Só aplausos.

Passou um ano. A economia cresce muito pouco. E a dívida é e será o maior de todos os problemas. Aqui reside a chave da continuação deste acordo: sem crescimento e com o serviço de dívida a levar-nos o equivalente ao que se gasta com a saúde, é impossível manter as premissas do consenso das esquerdas. Jerónimo sabe, e por isso vai avisando que o PCP não está “domesticado” e que quando for o tempo saberá garantir o que é mais importante: o partido.

Ninguém sabe como estará a Europa daqui a um ano. O que irá acontecer este fim-de-semana em Itália e na Áustria? E na França de Le Pen ou na Alemanha de Merkel? Será que o euro resiste? Na sala onde decorre o congresso, em Almada, há uma tarja que diz “basta de submissão à União Europeia e ao Euro”. Jerónimo e os comunistas andam há anos a avisar-nos para os males da moeda única e para a importância do país se preparar para o que pode vir. Para já, o partido terá de continuar a viver na contradição, mas a realidade tem dado muitas voltas e Jerónimo tem-nos mostrado que não anda assim tão alheado do mundo que nos rodeia.