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Expresso

Rio e o lobo

Em agosto de 2014 António Costa foi premonitório. Numa entrevista ao Expresso dizia: "Verdadeiramente, o meu adversário é Rui Rio”. Na altura, Costa ainda estava na Câmara Municipal de Lisboa mas já tinha em marcha o combate no PS contra António José Seguro. Ao falar de Rio, o único propósito do socialista era fragilizar o mais que podia a liderança de Passos Coelho. Nessa entrevista, Costa dizia que o “país anseia por novos protagonistas, com prova dadas, que rompam este ciclo de vistas curtas”. E hoje, diria o mesmo?

Quantos de nós ainda acreditam nos “passos em frente” de Rui Rio? Quantas vezes já ouvimos dizer que se está a “chegar à frente”? Pois, muitas. Demasiadas. Mas agora pode ser diferente. As circunstâncias mudaram, o PSD regista mínimos históricos nas sondagens e Passos não está a conseguir protagonizar uma alternativa – prova disso é que o partido precisou de mudar de discurso e de estratégia na oposição, vejam-se as propostas de alteração que irá fazer ao OE. É de saudar que o faça, mas a verdade é que este esforço parece mais um desespero de inverter o ciclo recessivo em que caiu a São Caetano. A missão de Passos, como já várias vezes escrevi, está demasiado condicionada pelo passado. Resta-lhe resistir… enquanto tiver forças. E enquanto o PSD o permitir.

Sim, é verdade que o partido não gosta de Rui Rio. E que Rui Rio também não tem paciência, nem jeito, para o partido e para as dinâmicas do aparelho. Mas tudo isso se ultrapassa se e quando o PSD perceber – e as sondagens começam a mostrá-lo – que com ele tem a alternativa (a única alternativa) que lhe escapa. Se Passos é uma espécie de garantia de sobrevivência da “geringonça” – enquanto ele lá estiver, as esquerdas têm um inimigo que as cola –, com Rio o cenário é outro. Rio aposta no regresso à sua social-democracia, ao PSD de antes. Insiste na reforma do regime. Ataca os media. E gosta, como se leu na entrevista, de cultivar os “inimigos políticos corretos”. Rio traz com ele um discurso de “cortar a direito”, com óbvios perigos, e às vezes a roçar o populismo (num tempo em que os populismos reinam), mas com a energia que pode fazer caminho num PSD estafado e sem rumo perante uma “geringonça” que teima em aguentar-se.

Com a vitória nas legislativas, Passos ganhou o direito de não só continuar a liderar o partido mas de ser também o candidato do partido nas próximas legislativas. O problema está nas autárquicas. Como antecipou Marcelo, depois dessas eleições um novo ciclo político pode começar. Com a mais do que provável derrota em Lisboa e no Porto – também por falta de uma oposição atuante, o PSD ficará ferido de morte. Passos já prometeu que dará luta, mas Costa terá também de começar a fazer contas. É que o avanço de Rio representa um desafio para o primeiro-ministro. Se Rio substituir Passos, a “geringonça” perde força porque ganha uma nova oposição. O PSD liberta-se do passado e assume uma nova agenda. Com Rio no caminho, Costa perde margem de manobra e as sondagens ainda não lhe dão conforto suficiente para tentar, sozinho, uma maioria. E as esquerdas que o puseram no poder, não lhe vão facilitar a vida caso tente antecipar uma crise.

Tudo isto é ainda um enorme ‘se’. E tem por base o “poderá” de Rui Rio. É verdade que o ex-autarca disse agora mais qualquer coisa, mas ainda é cedo para certezas. Todos sabemos como Rui Rio é calculista e faz mil e um cenários, deixando de lado o feeling político que estes movimentos também exigem. Na corrida presidencial perdeu tempo e foi ultrapassado por Marcelo, e no passado foi mais um dos muitos “D. Sebastião” do partido que nunca largou o nevoeiro das promessas. Agora, Rio pôs várias condições para avançar, para assim ter justificação caso decida (outra vez) ficar em casa. Como na história de Pedro e do Lobo, Rio vai queimando fichas e oportunidades. E se agora muitos já desconfiam, no futuro, se voltar a recuar, o país deixará de o ouvir. Mal por mal, o lobo é mais verdadeiro e não se fica pelas meias tintas.