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Expresso

O carrossel de Bruxelas. E as voltinhas de Schäuble

E pronto, lá está Bruxelas a fazer prova de força (ou de vida)! Se há coisa que sabemos de cor é que os homens da Comissão Europeia fazem gala em engrossar a voz na hora de negociar o Orçamento. É assim com o Governo de Costa e já o foi com o de Passos. E tanto a direita como agora as esquerdas não têm, nem tiveram, outro caminho senão cumprir. Tratado Orçamental a quanto obrigas.

Mais do que analisar a atuação dos governos de Lisboa, detenho-me no comportamento do poder europeu. Já falarei de Schäuble. Antes a nova carta da Moscovici/Dumbrovskis que tem feito os títulos da imprensa. Bruxelas lança novos avisos e desta vez (outra vez) mostra-se desconfiada das contas do Orçamento. Identifica “riscos e discrepâncias” e pede mais informações. Não digo que as falhas identificadas não existam, questiono, isso sim, esta esquizofrenia relacional que Bruxelas insiste em manter com Portugal. Uma contenda que não se vê, com tanto afinco, com outros Estados membros e lembro, por exemplo, a Alemanha que com o seu superavit nas contas externas também faltou às regras do Pacto de Estabilidade. Já para não falar de França, outro “pecador do défice”, que escapou ao barulho ensurdecedor da novela das sanções “porque é a França”, como na altura prontamente respondeu o “amigo” Juncker.

O passado recente está cheio de episódios que nos levam a questionar o que se mostra à evidência: a política de “dois pesos e duas medidas” de Bruxelas. A forma como se prolongou o fantasma das sanções sobre Portugal é o exemplo mais recente de como se pode prejudicar a confiança num país, deixando-o em suspenso e atraindo sobre ele todas as más atenções. Mas lembro também a discussão que se seguiu ao envio do draft do OE de 2015 para Bruxelas. Voaram cartas, recados e ameaças. E o mais incrível é que a mesma Bruxelas que então obrigou o Governo a rever e a apertar as metas do défice quase ao cêntimo, acabaria por aliviar a exigência poucos meses depois quando deixou claro que não acreditava nas previsões do executivo e impôs a meta dos 2,3 – António Costa, com a sua ironia, sorriu e respondeu que não teria quaisquer problemas em cumprir um objetivo “menos ambicioso”. Porque se fez então tanta guerra?

Bruxelas pode garantir que não se move por agendas ideológicas, mas a sua intervenção por vezes errada e muitas vezes desequilibrada deixa-a vulnerável a todas as desconfianças e críticas. Se não é ideológica, parece. E isso intoxica todas as discussões e relações. Falo de Portugal, mas não esqueçamos o que aconteceu na Grécia. Bruxelas pode ter muitas razões do seu lado - e Portugal deve ser olhado e questionado -, mas perde-as quando se impõe no défice e assobia para o lado (com repetidas cimeiras inconclusivas) em assuntos tão sérios como o dos refugiados e o terrorismo.

E depois há essa figura chamada Wolfang Schäuble. O homem a quem todos gostam de chamar “poderoso”, que é de facto, mas que usa esse poder da pior forma. Schauble é mais um a desviar o poder da Europa para caminhos carregados de jogos políticos e agendas. Aceito que os contribuintes alemães estejam fartos de sustentar os “pecadores”, mas as declarações do ministro em vez de ajudarem, só trazem mais agitação. Schäuble, que tenta desviar as atenções do seu problema interno chamado Deutsche Bank, devia saber que as suas declarações em vez de fragilizarem só reforçam internamente o Governo de Costa. Mais: é inaceitável que o alemão interfira diretamente na vida interna e democrática de outro estado-membro. Quer o quê, derrubar o Governo? E Merkell concorda? É esta a posição da Alemanha?

É verdade que nós por cá não estamos bem. E que o governo de António Costa está a falhar no seu modelo económico. Mas também é verdade - com medidas extraordinárias, é certo – que o país terá um défice abaixo dos 3%. E se para Schäuble e Bruxelas a discussão que interessa é apenas a dos números, este cumprimento do défice devia ser suficiente. Não foram eles que expurgaram a Europa do debate político e a transformaram num laboratório de números e estatísticas. Porque não se contentam com os 2,4% garantidos pelo PM?

Tudo isto é política. Baixa política. Podem-nos dizer, cimeira atrás de cimeira, que a cura da Europa é termos mais Europa, mas já ninguém acredita nessa retórica vazia. O modelo europeu de Schäuble e de quem manda em Bruxelas está hoje transformado num carrossel que se vai repetindo ad nausem, girando sobre si próprio de forma desorientada. E nós, Europeus, não estamos cansados destas voltinhas?