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Expresso

Rocha Andrade: um incompatível declarado

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A decisão de manter Fernando Rocha Andrade no Governo é daqueles mistérios que só António Costa pode esclarecer e resolver. Entre os dois há uma cumplicidade de longa data construída nos governos onde trabalharam lado a lado. Mas a pergunta impõe-se: há confiança que resista ao problema em que se tornou Rocha Andrade?

A verdade é que António Costa insiste em agarrá-lo ao lugar. Foi assim com o caso das viagens da Galp, e tem sido assim sempre que surge alguma polémica. A lista negra do secretário de Estado tem vindo a engordar. Muito mais do que gafes políticas, são sobretudo incompatibilidades, conflitos de interesses, falta de transparência. A somar às boleias da Galp, ao perdão fiscal e à sua atabalhoada resposta que teve de ser desmentida pelo próprio ministério, tivemos ainda a notícia das ações que detém na EDP e no BCP, empresas que, tal como a Galp, também estão em litígio com a administração fiscal.

Como se tudo isto não bastasse, Rocha Andrade tirou mais uma da cartola. De facto, tire-se-lhe o chapéu: capacidade de nos surpreender não lhe falta. Em entrevista ao DN/TSF, o secretário de Estado decidiu anunciar ao país “que todos os membros do governo carregam consigo uma lista grande de entidades em relação às quais não devem tomar decisões”.

Isto quer dizer o quê? Qual lista? Que entidades? Que ministros? Que decisões? Exige-se uma explicação para que não fiquemos todos a achar que estamos perante um governo de incompatíveis. A ser como diz Rocha Andrade, no limite, este governo pode estar em funções?

Um executivo inibido de tomar decisões está obviamente em conflito com os interesses do país e dos portugueses.

Rocha Andrade, tentando compor a coisa, explica-nos entretanto que “toda a gente que chega ao Governo vem de algum lado” e que há matérias sobre as quais essa “gente” não deve decidir. O óbvio, portanto. Mas foi esse bom senso que lhe faltou quando decidiu ir à bola com a Galp. Foi esse conflito que Rocha Andrade não soube ou não quis evitar. E no seu caso o problema não é de onde ele vem, mas o cargo que ocupa e o diferendo que existe entre a Galp e a máquina fiscal que tutela.

Por mais que agora diga que tudo isto é um “absurdo”, Rocha Andrade sabe que é ele o protagonista desta história. Mas ainda assim não hesitou em alastrar a sua toxicidade ao primeiro-ministro e ao resto do governo. Ao regime político. E di-lo como uma simplicidade como se tudo isto fosse normal. São todos incompatíveis e ponto final. E isto vindo de um responsável pela máquina fiscal que, como todos sabemos, não nos perdoa, a nós contribuintes, qualquer tipo de falha, erro ou incompatibilidade.

Mas o mal não está só no governante. Se Rocha Andrade tentou limpar o seu passado e a sua ficha metendo todos no mesmo saco, a resposta de Maria Luís Albuquerque – "no meu caso não se aplica" – é igualmente reprovável. O que ouvimos foi a ex-ministra a tratar de cuidar do seu futuro. Mas Maria Luís sabe que nesse futuro também estará na lista dos pecadores. A passagem pela Arrow Global é um borrão que não se apaga.

Uma hipocrisia que vai da direita à esquerda. Sabemos como o BE e o PCP se têm remetido a silêncios comprometedores. Se antes eram os primeiros a clamar por demissões e a queimar esta “gente” na praça pública, agora soam aflitos e fogem a sete pés do palco do governo: isso é lá com ele!, reagia António Filipe.

De facto, não é a primeira vez que a esquerda mostra um desconforto abafado. Em abril deste ano, a crítica suave de comunistas e bloquistas também ajudou a minimizar os danos no caso de Diogo Lacerda Machado, outro episódio de falta de transparência e conflito de interesses que minou António Costa.

O primeiro-ministro não tem tido vida fácil com o seu círculo de amigos. Pergunto-me o que ainda prende este secretário de Estado à cadeira do poder? A amizade não pode, nem deve, explicar tudo.