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Expresso

António Costa e o problema da palavra dada

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António Costa sempre disse que com ele “palavra dada é palavra honrada”. A garantia tornou-se aliás uma espécie de mantra deste Governo e do primeiro-ministro, reforçada pelos acordos que foram feitos à esquerda. Foi essa junção de vontades que permitiu aos socialistas pôr em prática uma política de devolução de rendimentos e a promessa de que os portugueses não veriam este governo dizer uma coisa e depois fazer outra.

Com o anúncio de sanções a Portugal, mais do que a solidez da “geringonça”, o problema de António Costa coloca-se ao nível da sua palavra e logo do seu Governo. É óbvio que se tiver de apresentar um plano B com mais medidas de ajustamento, o primeiro-ministro terá sérias fricções com o BE e o PCP, mas acima de tudo terá um problema com ele próprio. Afinal, que viabilidade tem um governo que prometeu uma coisa e depois terá de fazer outra?

Dirão muitos que todos os Governos fizeram o mesmo: nunca cumprem o que prometeram. Sim, é verdade, mas no que toca a António Costa a questão da palavra é particularmente sensível. Primeiro porque o primeiro-ministro se afirmou, e com isso conseguiu colar as esquerdas, como sendo uma espécie de antiPassos – Costa não se cansou de lembrar que o anterior governo faltou à palavra quando aumentou impostos e cortou rendimentos. Mas se é verdade que essa narrativa o reforçou, é igualmente verdade que fez aumentar o nível de exigência que recai sobre ele e sobre a sua palavra.

Ninguém acredita que o Governo cumpra o défice 2,2%, Costa garante que ficará abaixo dos 3% - ou seja, cumpre as regras. Mas Bruxelas dá claros sinais de querer um esforço maior. E, por isso, quando tiver de avançar com novas medidas – até para não ver os fundos estruturais congelados –, Costa, mais do que ter de escolher entre cumprir o tratado orçamental ou a paz com as esquerdas, terá de tomar primeiro uma outra decisão: honra ou não o seu próprio programa?

Nesta história das sanções há muita política à mistura. E ninguém fica bem na fotografia. Nem o anterior governo, nem o atual, nem as instituições europeias. Mas confesso que neste folhetim das sanções é sobretudo a atitude de Bruxelas que mais me choca. É verdade que o Governo não tem contribuído para que as instituições internacionais confiem nas políticas seguidas e nos seus resultados. Mas ou sim ou sopas, o que não se pode é manter durante meses uma nuvem negra sobre Portugal (e Espanha) que só faz aumentar a desconfiança sobre nós.

Com esta pressão contínua, Bruxelas parece querer provocar um plano B e influenciar as negociações do Orçamento de 2017. A questão é perceber como é que António Costa tenciona sair disto. O PM já prometeu contestar a decisão - que considerou “opaca” e “juridicamente incerta”. Mas, noutro sentido, Mário Centeno também lembrou “que Portugal está a obrigado a assumir compromissos”. Ou seja, disse o que a Comissão queria ouvir. Agora cabe a Costa decidir com que cara, com que palavra e sobretudo quais os compromissos pretende honrar. Os seus, os das esquerdas ou os de Bruxelas?