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Expresso

Seis notas rápidas e uma reação deslocada

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1 - Marcelo Rebelo de Sousa acertou na campanha que fez – sem máquina e sem partidos. Venceu o “one man show”. E os adversários, muito pouco mobilizadores, também ajudaram. Com o resultado alcançado (em linha com as últimas sondagens), fica claro que o seu eleitorado tradicional não só não lhe faltou como ainda conseguiu ir buscar muitos votos a outros terrenos.

2 - Ao vencer à primeira - com uma abstenção muito elevada que lhe enfraquece o resultado (e a Presidência?) -, Marcelo Rebelo de Sousa será um Presidente com um poder que é só seu. Por ter afastado os apoios do PSD e CDS (porque eram tóxicos para a sua campanha), Marcelo fica mais livre e sem faturas para pagar. Será um Presidente com uma legitimidade reforçada.

3 - A vitória de Marcelo pode ser uma boa notícia para António Costa . Com ele em Belém, o primeiro-ministro suportado pelas esquerdas terá mais liberdade (se e quando acontecer) para se disvincular dessa solução e sobretudo do PCP - e aproximar-se do PSD. Com Sampaio da Nóvoa, Costa teria mais dificuldade em fazê-lo. O ex-reitor ficou demasiado agarrado ao "tempo novo" e em caso de crise podia assumir-se como o representante máximo dessa solução.

4 - O resultado de Maria de Belém é uma tragédia. Humilhante mesmo. Para ela, mas também para o PS. Para ela porque é o reflexo de uma campanha desastrosa. Sem estratégia política e muito centrada nos ataques pessoais. A polémica das subvenções fez o resto, destruindo a imagem da “candidata do caráter”. Para o PS porque, depois do que se passou esta noite, os socialistas terão muito para discutir. É que, juntos, os candidatos da área do PS não conseguiram alcançar 30% do eleitorado - o que mostra como o eleitorado socialista está volátil. No largo do Rato as campainhas devem estar a soar: o BE voltou a entrar no campo do PS, e os socialistas mais moderados – não se identificando nem com Nóvoa, nem com Belém - terão preferido Marcelo.

5 - Marisa Matias é a outra surpresa da noite. Fica em terceiro lugar e com o melhor resultado de sempre do BE numas presidenciais (em 2006, Louçã teve 5,32%). Matias não só ultrapassa Maria de Belém, como fica à frente do PCP – repetindo o que aconteceu nas legislativas. Agora os comunistas podem querer medir forças com o Bloco de Esquerda - abanado a "geringonça" -, fazendo prova de vida nas ruas: musculando os protestos da CGTP. É mais um problema para António Costa.

6 - Na Soeiro Pereira Gomes, a noite foi pesada: Edgar Silva revelou-se uma péssima aposta mas deixa uma lição: um bom líder local não dá um bom candidato nacional. Sobretudo se tiver o “monstro” Jerónimo de Sousa a fazer-lhe sombra. Mais: o mau resultado do PCP pode significar um cartão vermelho dos eleitores comunistas à "solução das esquerdas" que apoiam Costa.

e...

A reação de António Costa (que soma a terceira derrota: presidencias, legislativas e regionais na Madeira) não foi normal. Não pelo que disse, mas pelo local escolhido para falar. Em vez de discursar no Largo do Rato e como líder partidário, Costa optou por falar em São Bento com o fato de Primeiro-ministro. Assim evitou a análise da noite eleitoral e o confronto com os maus resultados dos candidatos da área do PS. E, ao reagir desta forma, reconheceu que a noite não foi simpática para os socialistas que perderam as últimas 3 presidenciais.