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Expresso

Marcelo a Presidente ou a sabonete?

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Jose Carlos Carvalho

É cedo para dizer se Emídio Rangel teve razão antes do tempo, mas a campanha de Marcelo Rebelo de Sousa pode ajudar-nos a perceber quão relevante ainda é o poder da televisão.

Os relatos do terreno confirmam a quase inexistência da máquina partidária (que, como é obvio, está pronta a atuar). Como, aliás, nunca aconteceu em candidaturas de igual calibre, não há jotas, nem bombos, nem bandeiras. Há sim (e apenas) câmaras de televisão. E, claro, um candidato que domina como ninguém os truques, os timings e os soundbites certos para os telejornais.

Mas não foi só a claque partidária que foi dispensada. Por razões óbvias, Marcelo também arrumou o debate político. Com um único objetivo: entreter. E não se comprometer. Não há ideias, não se lançam discussões. Há apenas o candidato. E um abraço bem filmado a uma idosa. Uma frase solta para uma câmara que passa. Os medicamentos para o estômago na farmácia da terra. Uma dentada num palmier. Uma funerária (!). E tudo o mais que garanta um bom boneco televisivo.

Emídio Rangel, mítico diretor da SIC e antes da TSF, disse um dia (de forma metafórica) que uma televisão vende tudo - tanto um Presidente da República como um sabonete.

Marcelo está a levá-lo à letra. Vende-se todos os dias às 8 da noite e nos canais de notícias. E fá-lo melhor do que os outros.

O candidato, e os seus conselheiros, acreditam que as eleições se ganham nas televisões. São elas que informam o grosso dos portugueses. O problema é que as televisões, que hoje passam por dias menos positivos, já não registam os históricos “shares” (audiências) de 50%, como acontecia com a SIC quando Rangel falou dos Presidentes e dos sabonetes. E também não é líquido que a popularidade de Marcelo, construída na tv, se converta em votos de forma automática.

Uma coisa é gostar e reconhecer o comentador, outra é o receio que Belém se transforme num “big show Marcelo”.

É um facto que a campanha de todos dos candidatos é pobre e que isso também se deve a um acentuado desprestígio da Presidência da República. Um plano inclinado que Rebelo de Sousa, porque quer ganhar, não contraria - como aliás também alimenta.

Com a sua prestação vazia, pouco inspiradora, desalinhada até das suas referências ideológicas, e algumas vezes caricata, Marcelo arrisca desiludir a sua audiência dos domingos à noite. A pergunta é: em quem prefere votar, no comentador ou no candidato?

Marcelo habituou-nos a muito mais. Tem curriculum de sobra para ser um Presidente à altura do momento político. Se ganhar com esta campanha fará história. Mas tal como nos “reality shows”, ainda terá de passar pelas nomeações do público. No dia 24 de janeiro, o povo decide. E logo se verá se faz justiça a Emídio Rangel. Será que tv ainda consegue vender Marcelo como se vende um sabonete?