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Expresso

Jerónimo faz figas para que Costa governe à direita

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Concorde-se ou não com o acordo das esquerdas. Acredite-se ou não na “solução duradoura” deste entendimento, e já lá vamos, há um dado inquestionável: Jerónimo de Sousa e o Comité Central do PCP deram um passo de gigante. O sim comunista é histórico, a questão está na história que daqui vai resultar

Neste momento é difícil, para não dizer impossível, depositarmos toda a nossa fé nesta conjugação que apresenta várias dissonâncias. No PCP, por mais que a decisão tenha sido votada por unanimidade, há sinais públicos que nem todos estão de acordo. Por outro lado, entre comunistas e bloquistas há uma contenda, ou uma óbvia competição, que saiu dos bastidores com as críticas, deste fim de semana, do líder comunista ao BE. E acima de tudo não se percebem pontes claras entre estes dois partidos. O sinal mais evidente é a ausência de um acordo único (que juntasse todos num só texto), mas também as quatro moções de rejeição. A leitura pode ser feita: os comunistas não se quiseram misturar com o BE. O PCP quis assegurar a sua autonomia programática.

Se para o Bloco as questões técnicas eram as mais importantes - até para as vender como troféus do que tinha conseguido arrancar ao PS -, no Partido Comunista são as questões políticas que mais ordenam. E chegados a este ponto, sublinhe-se outra das grandes fragilidades desta vontade comum das esquerdas: o PC compromete-se com uma “solução duradoura”, mas não põe por escrito que viabiliza os quatro orçamentos da legislatura. É como se estivesse com um pé dentro e o outro de fora. Ou seja, garante a investidura do Governo PS (e o derrube da direita), garante o primeiro Orçamento - o que traz as medidas populares - que devolve rendimentos, e que reverte privatizações e as concessões nas empresas de transportes (tão importante para manter a força da CGTP); mas nos anos seguintes logo se vê. É como se Jerónimo nos dissesse o “caminho faz-se caminhando”. Viabiliza o mandato mas não se compromete por e com ele.

Na famosa cassete comunista, o PS sempre foi igual à direita. Será que os comunistas passaram acreditar neste novo PS? Num PS de esquerda? A verdade é que quiseram (ou tiveram de) acreditar, porque, mais do que a NATO, o euro, o Tratado Orçamental, a grande prioridade de tudo isto era tirar Passos e Portas do poder. Mas Jerónimo de Sousa sabe que o futuro não se prevê fácil e que a margem é muito estreita. O que está no acordo é sem dúvida relevante, mas as surpresas que estão para vir serão decisivas, e o verdadeiro teste ao cimento deste entendimento.

Os comunistas sabem que, tal como a direita, António Costa não poderá governar fora do guião de Bruxelas. O líder do PS pode até faze-lo com a “leitura inteligente do Tratado Orçamental”, que sempre defendeu, mas para o PCP, seja com que leitura for, esse “acerto” com a União Europeia, mais tarde ou mais cedo, pode acabar por se tornar o motivo para romper. Mas pode também ser a chave da sobrevivência da autonomia comunista. O PCP, que nunca deixará a luta nas ruas, e as suas bandeiras, ganhará força - fez um acordo pela mudança mas o PS (uma vez mais) desiludiu.

A jogada é de alto risco. Mas se há coisa que aprendemos nos últimos dias é que os comunistas são exímios na arte dos jogos e da negociação. O problema é se tudo isto termina num perigoso bluff.