Siga-nos

Perfil

Expresso

E o PS sobrevive a um Governo de esquerda?

  • 333

É verdade que ainda faltam as reuniões técnicas, onde muita coisa pode mudar, mas o acordo entre PS, BE e PCP parece cada vez mais possível de alcançar. Os sinais, e já são muitos, apontam nessa direção e António Costa, depois das posições assumidas por Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, está com cada vez menos margem para “enDireitar” o seu caminho.

Se optasse agora por dar a mão à coligação, António Costa seria comido vivo pela esquerda e por uma boa parte do seu partido. Se a performance do PS já foi má nas eleições de 4 de outubro, nesse cenário de inversão de jogo, numa próxima ida às urnas, o partido corria o risco de se tornar irrelevante. Desaparecia à esquerda e era cilindrado no centro pela direita. A sua identidade partidária tornava-se ainda mais desfocada.

O problema é que a opção de federar as esquerdas traz também muitos riscos para o futuro dos socialistas. É verdade que BE e PCP deixaram claro que agora o que interessa é deitar abaixo a direita – “abdicando” até dos pontos de divergência dos seus programas -, mas o drama virá depois. Quando se passar ao patamar seguinte, quando for preciso concertar posições e passá-las à prática num governo socialista.

Como é que BE e PCP vão aceitar as imposições de Bruxelas? E se for preciso tomar medidas impopulares para cumprir o défice? Alinham com o contrato único previsto pelo PS? E com os cortes nas prestações não contributivas? A crise ainda não passou e a esquerda, que eu saiba, ainda não faz milagres.

O PS, contando com a boa-fé de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, quererá que fique tudo escrito, mas tal como entre socialistas, também entre bloquistas e comunistas se levantará a questão da sobrevivência dos seus partidos. O risco do abraço de urso socialista é grande. A esquerda está a aliar-se ao inimigo e temendo a perda de bandeiras e de eleitorado, na hora da verdade, também quererá matar o PS. A dúvida é se será na primeira oportunidade.

A instabilidade estará sempre à espreita. Para a direita abre-se caminho para uma maioria absoluta. E António Costa - um líder derrotado, não esquecer - e o PS serão sempre responsabilizados pelo recuo que se verifique no país.

António Costa está num beco sem saídas fáceis. E o PS sem alternativas para desafiar a liderança. Se a isto juntarmos uma previsível derrota nas presidenciais – a segunda de Costa – a fragilidade do seu líder será ainda maior. O PS até pode passar pela cadeira do poder - e esse é o canto de sereia que já faz sonhar o aparelho -, o problema é em que condições de lá sai. Será que ainda vai ser o PS que conhecemos ao longo dos últimos 40 anos?