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Expresso

Vamos ter um Costa à Seguro?

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Ficou claro no discurso que fez na noite da derrota, mais do que entendimentos à esquerda – que serão praticamente impossíveis -, António Costa acabará por negociar à direita. E contrariando o discurso radical da campanha, não contem com ele para “maiorias do contra” que potenciem cenários de ingovernabilidade.

Costa conseguiu ganhar tempo, é verdade, mas quanto tempo? No PS não há ninguém que lhe faça frente – Álvaro Beleza tem apenas a capacidade de abrir as hostilidades, mas falta um peso pesado que de facto dispute a liderança. Também sabendo disto, Costa optou por ficar. Mas fica fragilizado por uma derrota significativa. E tal como ele fez sombra a Seguro, agora é Seguro a fazer-lhe sombra a ele.

Tomemos como certo que o programa de Governo do PàF não cairá por terra – obviamente que haverá uma rejeição da esquerda, que o PS não aprova -, coisa diferente será com o Orçamento do Estado. É aí que a guerra pode azedar de vez. Um líder derrotado, por mais que seja a única solução, estará menos legitimado. No PS será sempre visto como o que não conseguiu chegar ao poder, ao “pote” tão desejado pelos partidos – e a Direita pode querer explorar essa ferida. A corda vai esticar.

PSD e CDS podem aproveitar o OE, carregando-o de tudo aquilo que Costa considerou e considera intolerável, para pôr à prova a liderança socialista. E das duas uma: se o PS chumbar está aberta uma crise política e Passos fará do bloqueio uma bandeira para as eleições que se seguem. Mas se deixar passar – ele que defendeu na Quadratura que os partidos de Governo devem viabilizar os OE -, abrirá uma crise interna. No PS não faltaria quem achasse que o partido estava a ser metido no bolso da direita. E aí pode ser Costa a não aguentar.

Ainda hoje o ministro das Finanças alemão, odiado pela esquerda, veio dizer que a vitória da coligação é um encorajamento da política que se seguiu. Poderá o PS pactuar com a “política das medidas duras” aplaudida por Schäuble?

No meio desta tempestade, com Presidenciais pelo meio, Costa, o “homem das pontes”, pode tentar reciclar-se e ficar para a história como o homem que pegou na fraqueza da derrota e conseguiu transformá-la num importante bloco central. Não de Governo, mas de entendimentos. Será difícil. Os ditos “radicais” que agora estiveram com ele não vão gostar. Os papéis invertem-se. E Costa será acusado de se estar a “Segurizar” – “se pensarmos como a direita pensa, acabamos a governar como a direita governou”. O mundo dá muitas voltas. Mas a política dá muitas mais.