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Expresso

Um discurso de 2011 e um programa de cromos repetidos

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Em 2011, Passos Coelho incendiou a campanha com uma ameaça. Dizia o então candidato do PSD que a troika contava que o Governo mudasse para poder ajudar Portugal. Hoje voltou a seguir o mesmo caminho.

Desta vez, o aviso já não mete os credores internacionais mas as agências de rating: “Estão à espera do resultado das eleições”. A estratégia é de chantagem. De medo. Como se só este Governo pudesse garantir ao país o caminho virtuoso do triple A. Se assim é, porque não o fizeram nos últimos quatro anos? Não foi Portugal o bom aluno?

Para quem não sabe, o país continua no lixo. É certo que já não estamos no fundo do caixote, mas continuamos lá: no saco preto das notações financeiras. Depois de toda a austeridade e das “tantas” e “bem-sucedidas” reformas que o Governo reclama, as agências de rating continuam a considerar-nos pouco confiáveis. A verdade é que o papão que Passos agora recupera tem estado sempre à nossa porta.

O episódio revela o tom que a coligação vai assumir nas próximas 10 semanas. Sem propostas de futuro, é o passado que lhes vale. E o programa que hoje apresentaram é o melhor retrato de quem não tem muito mais para oferecer que não seja “o nós e o eles”.

Ouvi há tempos, de um alto dirigente da coligação, que as propostas eleitorais eram “muito pouco ambiciosas”. E hoje o país inteiro confirmou isso mesmo. As medidas de Passos Coelho e Paulo Portas mais não são do que um embrulho (mediaticamente colorido) do que já se conhece.

Mas há uma novidade: a aposta no social. Sim, percebeu bem, no social. A ideia é que depois do período da emergência e da fortíssima austeridade (que a maioria promete ir aliviando nos próximos 4 anos em oposição à maior rapidez socialista), agora é tempo de corrigir os estragos deixados pela governação. Mas por culpa do PS, dizem eles.

Ao apostar na correção das desigualdades, a direita entra no terreno da esquerda e espera que o país confie que quem destruiu pode agora corrigir os profundos estragos. Acredita? Ao baixar as expectativas e as promessas, a coligação centra o discurso no “aventureirismo” socialista, passando toda a pressão para o campo adversário, como se só Costa tivesse que provar nas legislativas de 4 de outubro.

Ao invocar Abril, Passos e Portas esquecem que o que então estava em causa era a construção de um futuro e de uma nova esperança. Mas o que agora nos mostraram foi uma continuidade resignada e pouco mobilizadora.