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Expresso

E a unidade, António?

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“António, se não consegues unir o partido, eu consigo.” Esta declaração de António Costa foi-me relembrada há dias por um segurista. Foi dita naquela célebre e agitada Comissão Política, de janeiro de 2013, em que Costa esteve para avançar para a liderança. A história é agora recuperada por razões óbvias. Os homens de Seguro, como é público, dizem-se vítimas de uma “limpeza étnica”, por parte da direção nacional, nas listas para as legislativas.

Não pretendo aqui fazer a defesa dos chamados seguristas. Quem acompanha a vida interna dos partidos sabe que as negociações para os lugares no Parlamento são dos momentos mais difíceis para as lideranças. E sempre repletos de acusações e contra-acusações, como se houvesse à partida lugares garantidos. Mas factos são factos: Seguro perdeu as primárias e por isso é normal que o seu património, e os seus homens – que também estão divididos -, valham menos.

Na lógica de poder, quem manda escolhe os seus. E agora quem manda é António Costa. É impensável achar que as listas são um saco sem fundo, onde cabem todos e onde todos se julgam mais importantes do que os outros e com direito a entrada prioritária. Não é assim. Nem pode ser assim. Mas isto não quer dizer que o líder esteja a gerir bem o processo. Não está. Pela simples razão que, mais uma vez, mostra inabilidade nas escolhas e nas negociações (e logo ele que goza da fama de grande negociador!). É óbvio, como disse atrás, que Costa escolhe quem quer mas ao deixar de fora certos representantes da anterior liderança – que lhe podem fazer falta junto da máquina – e outros nomes, deixa crescer a agitação e fragiliza uma das suas bandeiras: “António, se não consegues unir o partido, eu consigo”.

Numa rápida visita aos últimos meses, percebe-se que o compromisso de unir o partido tem vindo a esboroar-se. E em várias frentes, contaminando-lhe a campanha. Nas listas. Na escolha do candidato presidencial - César de um lado, Costa do outro. Sampaio da Nóvoa à esquerda e Maria de Belém à espreita. Na reação à Grécia e a Sócrates. Na TSU. Nos discursos sobre o país - positivos para uma plateia de chineses, negativos para portugueses. Nos resultados das sondagens. Enfim, tudo tem servido para amolecer a cimentada liderança que Costa prometeu ao partido depois de um Seguro “de Pirro”.

A diferença de estilos é notória. Seguro teve de anular-se. Costa impõe-se. Mas a derradeira prova terá de a dar no domingo de eleições. Como todos sabemos, os partidos movem-se pelo poder. E os líderes vão e vêm. “Uma ‘vitoriazinha’”, como Pacheco Pereira lembrou, “é uma derrota do PS”. E se não chegar a uma “vitoriazinha”?

Antes das europeias que levaram à queda de Seguro, António Costa falava assim: “Ganhar poucochinho” agora significa “fazer uma coligação poucochinha e fraquinha”. “É preciso ganhar solidamente e poder ter força e capacidade para poder negociar e fazer acordos.” “É evidente que o PS podia estar a posicionar-se melhor para estas eleições.” “Acho impensável que essas sondagens se concretizem em resultados.”

A história consegue, de facto, ser muito irónica.