Siga-nos

Perfil

Expresso

Estado da Nação: Um comício parlamentar

  • 333

Na despedida da legislatura, e com as eleições tão próximas, Passos Coelho quis deixar uma mensagem. Ou a sua certeza: "Não falhámos". Não é um slogan de campanha, mas pode muito bem vir a ser. O discurso que o primeiro-ministro trouxe para o debate do Estado da Nação segue a linha da "estratégia acertada". 

Definido o rumo, a coligação insiste numa pergunta: como estaria o país se fosse o PS a governar? É simples, mas será eficaz? À boleia do que se está a passar na Europa, o Governo parte do princípio que os portugueses farão o seguinte raciocínio: os últimos anos foram maus, mas, apesar de tudo, não estamos na situação da Grécia.

A lógica é questionável e arriscada. Primeiro porque se no domingo houver um acordo que inclua mexidas na dívida, a situação pode inverter-se e a vida do Governo fica mais difícil. Depois porque usar o medo como bandeira já se revelou errado. No referendo grego não funcionou. E por cá, em campanhas anteriores, deu maus resultados. E finalmente porque essa estratégia parte de uma suposição pouco crível. Os portugueses não se esquecem dos sacrifícios a que foram sujeitos. 

A verdade é que essa foi uma das falhas do PS num debate muito gritado e pouco esclarecedor. É que se a direita usou e abusou da premissa ‘como-estariamos-se-fosse-o-ps?’, os socialistas não souberam cavalgar o outro lado da história: o ‘como-estivemos-com-este-governo’. Não só não conseguiram mostrar-se como alternativa – talvez porque não tenham alternativa -, com um discurso diferente, como deixaram que a coligação, sozinha em palco, se afirmasse, ela sim, como a “mudança”. O que assistimos no Parlamento foi um verdadeiro comício da direita. E o que fez o PS? Esgotou-se em perguntas, perdeu tempo e não percebeu que, sendo aquele um momento de balanço da legislatura, era também um momento de afirmação.

Com esta estratégia, e sem bandeiras claras, os socialistas deram o flanco e revelaram uma vez mais no que se tornaram nos últimos tempos: um partido que só pede esclarecimentos. Condicionado entre a Grécia, Sócrates e Sampaio da Nóvoa. A encruzilhada é evidente, mas só se sai dela arriscando um caminho.